12.7.08

O ovo, A Favorita, o Juiz-Ministro e o Banqueiro Corrupto

Como numa novela da vida real que vai se confundir com uma novela na TV e nos tornando a todos, audiência de um desfecho previsível e anunciado: corrupção, impuneidade e passividade pública.
Alicia carrega um ovo imenso (de avestruz ou de uma serpente Anaconda?) entre as mãos espalmadas na altura do peito, equilibrado entre os seios como uma madona macabra que anuncia o caos.

Céu (nome da personagem) é a gata borralheira e inconsequente como Alícia que irrompe no ringue bêbada, profere algumas palavras agressivas e conclui a cena jogando os ovos que estavam espalhados pelo chão em todos os convidados. Reproduzindo na cena do ringue e da platéia abobalhada uma representação alegórica da nossa vida com um povo alienado diante do espetáculo inverossímel em que se tornou a vida comandada pelo poder da mídia.

Em Brasília o presidente do Supremo Tribunal Federal a mais alta instância de justiça da República manda libertar pela segunda vez em 24 horas um banqueiro (que não era o do "ilegal" e milionário jogo do bicho) que estava preso preventivamente por agir ilegalmente, lavando dinheiro da corrupção roubado do governo através das concorrências superfaturadas e fraudadas e que vai pagar propina a políticos, funcionários, policiais e juízes.


A teia de corrupção que orbita o banqueiro e empresário Daniel Dantas possui ramificações na esfera pública e privada.

Mediante a lei complacente e interpretada ao pé da letra, o juiz-ministro e presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes reitera em despacho que o banqueiro e sua quadrilha devem ser libertados por ser figura pública, endereço conhecido, etc. Em desprezo às evidências e provas preliminares das fraudes milionárias que não constituem para o presidente do Tribunal indícios suficientes para a manutenção da prisão: 1 milhão em dinheiro vivo apreendidos na casa do ex-dirigente de uma das empresas do banqueiro, a oferta e pagamento parcial de propina a um delegado, o dinheiro entregue por funcionários do banqueiro e gravações telefônicas não foram suficientes para que o juíz do STF mantivesse prêso o banqueiro.
Aliás, uma das gravações feitas já previra o desfecho naquela corte de justiça, antecipando o que estava por vir, o banqueiro nelas declarava que temia as instâncias inferiores, mas na cúpula estava tudo garantido. E também políticos outrora respeitáveis (ou tidos como tal) também apoiaram a decisão do juiz.

Enquanto o juiz -presidente do STF defende um corrupto nas ruas a "polícia para o pobre", executa, antecipa condenações fora da lei e preventivamente extermina suspeitos, atinge desavisados, mata, viola direitos, assusta a população encarcerrando-a em suas residências: Medo do bandido e medo da polícia se juntam na forma dada pela mídia para manter o medo, o controle pelo medo, mas ligado na televisão que "tudo vê".

Os ovos são pisados no palco, na cena da novela das oito, e são jogados na platéia atônita que não entende aquela cena de 'arte contemporânea'. Do mesmo modo que não entende, aquilo que não se sabe mais se é 'vida real' ou 'novela da vida' passada no noticiário. 
A realidade é tornada ficção no noticiário e também nas cenas produzidas pelas decisões jurídicas e políticas das mais altas instâncias de poder. Aquela decisão que não profere matar o cidadão fisicamente, mas que anula a sua inteligência e vontade substituída pela ira sem revolta e direção certa que vai explodir na próxima cena de violência no trânsito, na família. Abobalhado diante do achincalhe a que é submetido cotidianamente pelos ursupadores da cidadania acobertados pela força das "suas leis" e das armas legais e ilegais portadas  pelos próceres bem pagos com o dinheiro público.

A teia de corrpção é pública, anunciada e antecipada em seu desfecho como nos capítulos da novela, onde hoje a velocidade da informação e antecipação do amanhã se tornaram a pedra-de-toque da munutenção do dia-a-dia. Não vivemos mais sem o amanhã antecipado. Na novela da TV e na novela da vida pública nos tornamos forçosamente audiência sem direito a feedeback, só nos oferecem replay.

Um comentário:

Marcelo C.Henrique disse...

Muito bom meu amigo,gostei muito.

Os verdadeiros bandidos estão dentro de um gabinete.

Abraços!

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails