31.3.09

A cor da riqueza e da pobreza


O Presidente Lula afirmou ao receber o Primeiro Ministro Britânico Gordon Brown em Brasília (26/3) que a riqueza tem cor e que a crise econômica atual foi causada por "gente branca, loira, de olhos azuis". 
Para uma boa parte da consciência democrática nacional a pobreza da população brasileira tem cor, ela é negra na grande maioria, é o que está demonstrado nas estatísticas sobre cor e desigualdades sociais no Brasil. 

A história da pobreza no Brasil sabe-se, ela começa com a escravidão dos africanos que durou cerca de quatro séculos se encerrando renitente no fim do século XIX (1888) por pressão do capitalismo global na época controlado pelo Império Britânico. Com a libertação dos escravos imposta pelos inglêses às véspera do século XX, o então, Império brasileiro enfraquecido paga com a Abolição seu tributo à emergente República que vai deixar intocados os bens e privilégios da família imperial e do latifúndio escravocrata não realizando até hoje a reforma agrária. Este Império quase caricato do modelo monárquico europeu fez assim o trabalho sujo da história que não estava nos princípios de governo da República, mas que esta criminosamente omite-se deixando os ex-escravos à míngua para se virarem em busca do trabalho e da moradia que a escravidão garantia na medida de sua reprodução.

A busca pelo trabalho cada vez mais qualificado da era industrial legou ao sub-emprego, ao trabalho desqualificado e a marginalidade urbana e rural a maioria da população negra tal como se prolonga até hoje no século XXI. O capital, o poder político, o controle do Estado, dos recursos públicos, o dirigismo e a apropriação cultural foram mantidos pelos descendentes de europeus aqui no Brasil. Tanto localmente como nos centros de controle globais a hegemonia tem um forte componente racial o poder exercido pela tal  "gente branca loira de olhos azuis" que o Presidente Lula disse ousadamente como metáfora dessa situação diante do Primeiro Ministro Britânico, exemplar representante do capitalismo. O que não deixa de ser tanto uma bravata política do Presidente Lula quanto uma realidade do tipo de poder exercido no mundo e que pode ser visto por este prisma da racialização, e que apenas constata o componente racial como um mecanismo do poder do qual o capitalismo tem se utilizado para manter sua hegemonia. 

O mecanismo de poder racismo é herdado do período monárquico e dele se valeu também a burguesia para se legitimar construindo um 'discurso científico' que servia para naturalizar numa escala racial seu controle social. É uma ideologia poderosa que assegura grande parte de sua força política e que se mostra para a maioria da população negra como de resto da população pobre, principalmente através da polícia que continua fazendo o mesmo trabalho sujo que feito pela monarquia brasileira ao fim da escravidão e continuado pelo Estado republicano e que grande parte da sociedade atual não apenas se omite quando não estimula pedindo mais repressão para os favelados como se observa cotidianamente na mídia. 

Mesmo com a formação de um outro saber que nega a "existência" das 'raças' tornando este apelo um estigma e um jogo de palavras. Apesar de tentar desqualificar conceito científico de raças humanas sua validade continua plena no jogo político, esta mistificação não a eliminou como um 'dispositivo de poder' da cena polítca e social e por isso o Presidente Lula pode ousar legitimamente em nome dos negros, índios e pobres em geral demarcando nestes termos quem fabricou e quem é prejudicado pela atual crise.

Quem não falar ousaria dizer o que disse o Presidente Lula é o Presidente dos EUA Barak Obama.
No momento em que o Presidente Lula racializa o debate ele deixa espantados os puristas negros e brancos que se acostumaram a uma ideologia anti-racial de origem de classe e que por isso se recusam a perceber o mecanismo racial de poder no mundo. Esta desigualdade vista como natural por uns e de classe por outros está estampada na cor da pobreza no Brasil e no mundo, mas que os puristas - liberais e esquerdistas - se fazem de míopes ao menos agora para a cor da riqueza

3 comentários:

Nijinski Arts Internacional e.V.-Berlin disse...

Pois é, meu amigo

E quem vive na Europa, como nós vivemos nesse momento, e somos brasileiros negros, sabe muito bem que o Lula nao está blefando!!!!

Ras Adauto

Marcelo C.Henrique disse...

A cor da pobreza é, e sempre foi negra, basta atentarmos para as pesquisas. Muito bom Ricardo, parabéns!

Nilza disse...

Muito bom, Ricardo, Parabéns!

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