3.7.07

O que o Presidente Lula poderia ter dito


No lançamento do PAC no Rio de Janeiro, o presidente Lula disse em discurso no Canecão que não se deve tratar bandidos jogando pétalas de rosas ou pó-de-arroz (!). Mas quem pediu isso ao Presidente? Em nome de quem falou o Presidente Lula?

Da população local? Que toma uns tiros de vez em quando num confronto em que são alvos de balas perdidas? As organizações de cidadãos a quem cumpre nestes casos ao menos a tarefa de reação e denúncia na violação de direitos?

Pediram flores os bandidos?

Não, Lula naquele momento falou para um público interno e que outrora parte dele, o seu próprio partido abrigou ou apoiou defendendo os direitos humanos, a dignidade e o respeito pelos mais fracos e que agora se viola mais uma vez em nome da defesa do Estado.

O Presidente Lula também, não falou em nome daquela parte da população local que gostaria de viver em segurança, mas que certamente teria outra solução se consultada e que não seria fazer uma guerra na porta de suas casas.

Talvez um Estado mais realista devesse proporcionar para aquela população um treinamento preventivo para uma guerra que estava sendo planejada e que se negava existir e que também é tomada de surpresa. Que está convivendo com o tráfico armado de hoje como conviveu com a pequena bandidagem em outros tempos e continua 'sofrendo nas mãos da polícia'.

O consentimento da opinião pública com este papel policial e violento pelo Estado é feita pela mídia associando as favelas ao tráfico e assim garantindo uma aceitação ou a omissão da sociedade.

Não deveria a mídia também apontar que qualquer tolerância com o ilegal e imoral foi alimentada pela tradição do descaso e do convívio com políticos que ainda hoje se alimentam dos votos daqueles cidadãos de segunda classe? Não é este um relacionamento tão violento e promíscuo como o que hoje se insinua haver com o tráfico?

O que Lula não disse cabe ao movimento negro dizer.

Ao descrever um homem que trabalhava num armazém vizinho à sua casa pobre quando chegou a São Paulo, Lula o definiu como "um afrodescendente, que naquela tempo a gente chamava de um crioulo bem forte e alto". O personagem era um dos que pagavam pedágio ao menino Lula de 14 anos para atravessar a enchente numa tábua que ele improvisava para os adultos não sujarem a calça de linho. "Se não pagassem, não conseguiam atravessar, tinham que me dar uma gorjeta", disse aquele outrora menino esperto.

- "Hoje Presidente, morar numa favela, talvez represente o mesmo desafio de, ao improvisar para descolar algum trocado, seja preciso se tornar um 'falcão'.


Um comentário:

Glória Reis disse...

José Ricardo, é triste ver o nosso presidente dizer coisas assim... Não dá para entender por que ele está se omitindo diante dessa carnificina nas favelas e demais truculências da polícia. E isso está uma epidemia, se quiser, leia no meu blog o "Massacre de adolescentes em MG". Abraços para você.

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