21.6.08

Morro da Providência, zona de exclusão

O atual episódio do Morro da Providência é emblemático numa época dita democrática.

“A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos” Oswald de Andrade, Manifesto da Poesia Pau-Brasil, 1924

Morro da Favela — 1924
óleo/tela 64 X 76cm
"Tarsila 1924"

Em 1924 os modernistas podiam interpretar com uma visão idílica na pintura e na literatura a 'moderna favela' habitada do gente pobre e feliz era o olhar estrangeiro adaptado no trópico. Contemporânea da República e sub-produto da tardia afirmação burguesa brasileira e da urbanização excludente. O Morro da Favela está localizado no centro da antiga capital republicana a poucas centenas de metros da praça de sua proclamação.

No Morro da Providência as tropas do exército acentuam a exclusão social dos civis agindo como tropa de ocupação de um território inimigo.

Até agora a midia passou para a sociedade a imagem de que a ditadura nas comunidades pobres era dos traficantes, inclusive politizando seu discurso contra "o tráfico" principalmente depois de expor seus profissionais em aventuras em "zonas de guerra" ou de "exclusão social" para colherem 'in loco' flagrantes dos 'fora da lei'. O desfecho trágico culminou com o assassinato do Tim Lopes cumprindo tarefa profissional para o jornal O Globo e agora um grupo de jornalistas faziam o mesmo para o jornal O Dia, não morreram mas foram torturados.
Ao depositar parte da sua indignação contra as violências cometidas contra os jornalistas estas empresas de mídia "sentiram na pele" um pouco do que a população desprotegida nestas comunidades sentem pela ditadura armada do tráfico, da polícia e agora do exército. Pouco mudou, mas parece que mudou, ou melhor, a mídia, nesse episódio do Morro da Providência deixou de fazer coro com o discurso da polícia de criminalizar as manifestações de Basta! que estas populações tentam fazer ecoar há muito tempo.
A ditadura caiu, mas apenas para aquela parte ascendente da burguesia fora dos negócios da ditadura e aspirante das novas oportunidades da economia mundial, para a classe-média criada na época, usufrutuária dos benefícios econômicos e sociais que nunca foram questionadas como cotas de privilégios para estas elites.

A inocência infantil e a ingenuidade adolescente contrastam com o regime de medo imposto por tropas do exército que agem como tropa de ocupação.

Mas para as populações das favelas, negros e nordestinos pobres e índios-descendentes desaldeados, a ditadura se manteve pelo silêncio cúmplice da mídia e pelo seu incitamento permanente contra todas as formas de manifestação do protesto contra a exclusão (ou será que só a classe média protesta?) ou da alegria e irreverência jovem do funk, apesar de seus excessos eufóricos, porém criminalizar sempre foi mais fácil do que tentar incluir.

O protagonismo fora-da-lei da tropa do exército e muitas das manifestações oficiais onde prevalece o 'espírito de corpo' demonstram a fraglidade da democracia formal e revela onde a corda arrebenta. Ninguém cumpre a lei, nem o exército antes, nem depois da medida judicial para a sua retirada, os outros casos são sabidos e vezeiros na vida publica nacional.
Mas o que fazia o exécito na comunidade? Realizava uma obra de perfil eleitoreiro encomendada por um senador com o dinheiro público ao custo de R$ 12.000.000,00 do qual recebeu R$ 3.000.000 e continuava sua prestação de serviço protegendo seus técnicos e trabalhadores locais com uma tropa armada.
Privilégio destes trabalhadores e técnicos-militares ou demonstração de força da "presença do Estado" junto a sua população civil? A justificativa da presença do exército contra o tráfico não pode se dar ao 'arrepio da lei' e os fatos demonstram a fragilidade das análises e estratégias feitas em que os relatórios divulgados pela mídia revelam: às estratégias não correspondem os fatos ou vice-versa e tendo este desfecho trágico que do ponto de vista de um objetivo militar são apenas baixas, normal.
Contudo, mais emblemático ainda é o fato de ser a comunidade do Morro da Providência originária em parte dos descendentes dos militares que massacraram a população civil rebelada em Canudos e que supostamente resistia à República, ex-escravos e toda aquela gente que chegava na capital para fundir no samba e no candomblé sua identidade.

No Morro da Providência se encontra um dos paradoxos da República brasileira, usar o povo contra o povo, como foi no passado, armando aqueles futuros excluídos para massacrar seus dissidentes, ou como hoje, os novos excluídos, não respeitando nem a memória de seus supostos heróis nas mesmas causas que hoje, invocando a ordem e a obediência envolvem novamente os militares contra o povo em nome da ordem e da segurança do Estado.

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