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24.3.12

Manifesto Pau Brasil



Capa de Tarsila do Amaral para o livro de poesias Pau Brasil de Oswald de Andrade

O Manifesto Pau Brasil como ficou conhecido é um marco da modernidade na cultura brasileira. Seu texto procura apreender o passado e o presente projetando um futuro nacional. Esta preocupação que o Manifesto expressa é a questão dominante nas elites intelectuais e políticas que nas três primeiras décadas do século XX estão especialmente preocupadas em inventar uma nação...


 Manifesto da Poesia Pau-Brasil


"A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.

O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança.

Toda a história bandeirante e a história comercial do Brasil. O lado doutor, o lado citações, o lado autores conhecidos. Comovente. Rui Barbosa: uma cartola na Senegâmbia. Tudo revertendo em riqueza. A riqueza dos bailes e das frases feitas. Negras de Jockey. Odaliscas no Catumbi. Falar difícil.

O lado doutor. Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens. O bacharel. Não podemos deixar de ser doutos. Doutores. País de dores anônimas, de doutores anônimos. O Império foi assim. Eruditamos tudo. Esquecemos o gavião de penacho.

A nunca exportação de poesia. A poesia anda oculta nos cipós maliciosos da sabedoria. Nas lianas da saudade universitária.

Mas houve um estouro nos aprendimentos. Os homens que sabiam tudo se deformaram como borrachas sopradas. Rebentaram.

A volta à especialização. Filósofos fazendo filosofia, críticos, critica, donas de casa tratando de cozinha.

A Poesia para os poetas. Alegria dos que não sabem e descobrem.

Tinha havido a inversão de tudo, a invasão de tudo : o teatro de tese e a luta no palco entre morais e imorais. A tese deve ser decidida em guerra de sociólogos, de homens de lei, gordos e dourados como Corpus Juris.

Ágil o teatro, filho do saltimbanco. Agil e ilógico. Ágil o romance, nascido da invenção. Ágil a poesia.

A poesia Pau-Brasil. Ágil e cândida. Como uma criança.

Uma sugestão de Blaise Cendrars : - Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino.

Contra o gabinetismo, a prática culta da vida. Engenheiros em vez de jurisconsultos, perdidos como chineses na genealogia das idéias.

A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.

Não há luta na terra de vocações acadêmicas. Há só fardas. Os futuristas e os outros.

Uma única luta - a luta pelo caminho. Dividamos: Poesia de importação. E a Poesia Pau-Brasil, de exportação.

Houve um fenômeno de democratização estética nas cinco partes sábias do mundo. Instituíra-se o naturalismo. Copiar. Quadros de carneiros que não fosse lã mesmo, não prestava. A interpretação no dicionário oral das Escolas de Belas Artes queria dizer reproduzir igualzinho... Veio a pirogravura. As meninas de todos os lares ficaram artistas. Apareceu a máquina fotográfica. E com todas as prerrogativas do cabelo grande, da caspa e da misteriosa genialidade de olho virado - o artista fotógrafo.

Na música, o piano invadiu as saletas nuas, de folhinha na parede. Todas as meninas ficaram pianistas. Surgiu o piano de manivela, o piano de patas. A pleyela. E a ironia eslava compôs para a pleyela. Stravinski.

A estatuária andou atrás. As procissões saíram novinhas das fábricas.

Só não se inventou uma máquina de fazer versos - já havia o poeta parnasiano.

Ora, a revolução indicou apenas que a arte voltava para as elites. E as elites começaram desmanchando. Duas fases: 1º) a deformação através do impressionismo, a fragmentação, o caos voluntário. De Cézanne e Malarmé, Rodin e Debussy até agora. 2º) o lirismo, a apresentação no templo, os materiais, a inocência construtiva.

O Brasil profiteur. O Brasil doutor. E a coincidência da primeira construção brasileira no movimento de reconstrução geral. Poesia Pau-Brasil.

Como a época é miraculosa, as leis nasceram do próprio rotamento dinâmico dos fatores destrutivos.

A síntese

O equilíbrio

O acabamento de carrosserie

A invenção

A surpresa

Uma nova perspectiva

Uma nova escala.

Qualquer esforço natural nesse sentido será bom. Poesia Pau-Brasil

O trabalho contra o detalhe naturalista - pela síntese; contra a morbidez romântica - pelo equilíbrio geômetra e pelo acabamento técnico; contra a cópia, pela invenção e pela surpresa.

Uma nova perspectiva.

A outra, a de Paolo Ucello criou o naturalismo de apogeu. Era uma ilusão ética. Os objetos distantes não diminuíam. Era uma lei de aparência. Ora, o momento é de reação à aparência. Reação à cópia. Substituir a perspectiva visual e naturalista por uma perspectiva de outra ordem: sentimental, intelectual, irônica, ingênua.

Uma nova escala:

A outra, a de um mundo proporcionado e catalogado com letras nos livros, crianças nos colos. O redame produzindo letras maiores que torres. E as novas formas da indústria, da viação, da aviação. Postes. Gasômetros Rails.

Laboratórios e oficinas técnicas. Vozes e tics de fios e ondas e fulgurações. Estrelas familiarizadas com negativos fotográficos. O correspondente da surpresa física em arte.

A reação contra o assunto invasor, diverso da finalidade. A peça de tese era um arranjo monstruoso. O romance de idéias, uma mistura. O quadro histórico, uma aberração. A escultura eloquente, um pavor sem sentido.

Nossa época anuncia a volta ao sentido puro.

Um quadro são linhas e cores. A estatuária são volumes sob a luz.

A Poesia Pau-Brasil é uma sala de jantar domingueira, com passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente.

Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres.

Temos a base dupla e presente - a floresta e a escola. A raça crédula e dualista e a geometria, a algebra e a química logo depois da mamadeira e do chá de erva-doce. Um misto de "dorme nenê que o bicho vem pegá" e de equações.

Uma visão que bata nos cilindros dos moinhos, nas turbinas elétricas; nas usinas produtoras, nas questões cambiais, sem perder de vista o Museu Nacional. Pau-Brasil.

Obuses de elevadores, cubos de arranha-céus e a sábia preguiça solar. A reza. O Carnaval. A energia íntima. O sabiá. A hospitalidade um pouco sensual, amorosa. A saudade dos pajés e os campos de aviação militar. Pau-Brasil.

O trabalho da geração futurista foi ciclópico. Acertar o relógio império da literatura nacional.

Realizada essa etapa, o problema é outro. Ser regional e puro em sua época.

O estado de inocência substituindo o estada de graça que pode ser uma atitude do espírito.

O contrapeso da originalidade nativa para inutilizar a adesão acadêmica.

A reação contra todas as indigestões de sabedoria. O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna.

Apenas brasileiros de nossa época. O necessário de química, de mecânica, de economia e de balística. Tudo digerido. Sem meeting cultural. Práticos. Experimentais. Poetas. Sem reminiscências livrescas. Sem comparações de apoio. Sem pesquisa etimológica. Sem ontologia.

Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A floresta e a escola. O Museu Nacional. A cozinha, o minério e a dança. A vegetação. Pau-Brasil."


Oswald de Andrade


(Correiro da Manhã, 18 de março de 1924)

21.6.08

Morro da Providência, zona de exclusão

O atual episódio do Morro da Providência é emblemático numa época dita democrática.

“A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos” Oswald de Andrade, Manifesto da Poesia Pau-Brasil, 1924

Morro da Favela — 1924
óleo/tela 64 X 76cm
"Tarsila 1924"

Em 1924 os modernistas podiam interpretar com uma visão idílica na pintura e na literatura a 'moderna favela' habitada do gente pobre e feliz era o olhar estrangeiro adaptado no trópico. Contemporânea da República e sub-produto da tardia afirmação burguesa brasileira e da urbanização excludente. O Morro da Favela está localizado no centro da antiga capital republicana a poucas centenas de metros da praça de sua proclamação.

No Morro da Providência as tropas do exército acentuam a exclusão social dos civis agindo como tropa de ocupação de um território inimigo.

Até agora a midia passou para a sociedade a imagem de que a ditadura nas comunidades pobres era dos traficantes, inclusive politizando seu discurso contra "o tráfico" principalmente depois de expor seus profissionais em aventuras em "zonas de guerra" ou de "exclusão social" para colherem 'in loco' flagrantes dos 'fora da lei'. O desfecho trágico culminou com o assassinato do Tim Lopes cumprindo tarefa profissional para o jornal O Globo e agora um grupo de jornalistas faziam o mesmo para o jornal O Dia, não morreram mas foram torturados.
Ao depositar parte da sua indignação contra as violências cometidas contra os jornalistas estas empresas de mídia "sentiram na pele" um pouco do que a população desprotegida nestas comunidades sentem pela ditadura armada do tráfico, da polícia e agora do exército. Pouco mudou, mas parece que mudou, ou melhor, a mídia, nesse episódio do Morro da Providência deixou de fazer coro com o discurso da polícia de criminalizar as manifestações de Basta! que estas populações tentam fazer ecoar há muito tempo.
A ditadura caiu, mas apenas para aquela parte ascendente da burguesia fora dos negócios da ditadura e aspirante das novas oportunidades da economia mundial, para a classe-média criada na época, usufrutuária dos benefícios econômicos e sociais que nunca foram questionadas como cotas de privilégios para estas elites.

A inocência infantil e a ingenuidade adolescente contrastam com o regime de medo imposto por tropas do exército que agem como tropa de ocupação.

Mas para as populações das favelas, negros e nordestinos pobres e índios-descendentes desaldeados, a ditadura se manteve pelo silêncio cúmplice da mídia e pelo seu incitamento permanente contra todas as formas de manifestação do protesto contra a exclusão (ou será que só a classe média protesta?) ou da alegria e irreverência jovem do funk, apesar de seus excessos eufóricos, porém criminalizar sempre foi mais fácil do que tentar incluir.

O protagonismo fora-da-lei da tropa do exército e muitas das manifestações oficiais onde prevalece o 'espírito de corpo' demonstram a fraglidade da democracia formal e revela onde a corda arrebenta. Ninguém cumpre a lei, nem o exército antes, nem depois da medida judicial para a sua retirada, os outros casos são sabidos e vezeiros na vida publica nacional.
Mas o que fazia o exécito na comunidade? Realizava uma obra de perfil eleitoreiro encomendada por um senador com o dinheiro público ao custo de R$ 12.000.000,00 do qual recebeu R$ 3.000.000 e continuava sua prestação de serviço protegendo seus técnicos e trabalhadores locais com uma tropa armada.
Privilégio destes trabalhadores e técnicos-militares ou demonstração de força da "presença do Estado" junto a sua população civil? A justificativa da presença do exército contra o tráfico não pode se dar ao 'arrepio da lei' e os fatos demonstram a fragilidade das análises e estratégias feitas em que os relatórios divulgados pela mídia revelam: às estratégias não correspondem os fatos ou vice-versa e tendo este desfecho trágico que do ponto de vista de um objetivo militar são apenas baixas, normal.
Contudo, mais emblemático ainda é o fato de ser a comunidade do Morro da Providência originária em parte dos descendentes dos militares que massacraram a população civil rebelada em Canudos e que supostamente resistia à República, ex-escravos e toda aquela gente que chegava na capital para fundir no samba e no candomblé sua identidade.

No Morro da Providência se encontra um dos paradoxos da República brasileira, usar o povo contra o povo, como foi no passado, armando aqueles futuros excluídos para massacrar seus dissidentes, ou como hoje, os novos excluídos, não respeitando nem a memória de seus supostos heróis nas mesmas causas que hoje, invocando a ordem e a obediência envolvem novamente os militares contra o povo em nome da ordem e da segurança do Estado.

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