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1.1.13

O cuidado de Dilma na posse de Barbosa

Pode ser um detalhe numa sequencia maior de acontecimentos ocorridos na posse do Ministro Joaquim Barbosa na Presidência do STF dia 22 de novembro, onde numa profusão de eventos se sucedem alguns se tornam mais marcantes onde a sutiliza vence a arrogância,quando o cuidado pode humanizar o poder.
A perspicácia do Presidente Dilma em soltar a toga do recém empossado Ministro Barbosa sugere uma atenção e um cuidado numa observação atenta aos movimentos do ministros numa simultaneidade de movimentos coordenados ao acaso mas que marcam um acontecimento. 

Presidente Dilma solta a toga do Ministro Joaquim Barbosa presa na cadeira no dia da posse no STF
Foto: O Globo 

30.3.12

Jovens negros ignoram o golpe de 1964 e seus pais também

A juventude atual, e a maioria da juventude negra desconhece o que foi o golpe militar de 1964 que instaurou quase duas décadas de terrorismo de Estado, assassinando opositores, enriquecendo uma corja de milicos, policiais, funcionários público e políticos corruptos com o apoio de empresários e a conivência de parte da população enganada pela mídia dominante.

Ainda hoje militares remanescentes desses tempos sombrios querem afrontar a democracia comemorando o golpe militar que impuseram mentirosamente chamar de revolução.

Leia mais sobre o Golpe de 1964.


O golpe de 1964 e a instauraçao do regime militar
Presidente João Goulart em reunião com o ministério presidencialista. Jan 1963.Na madrugada do dia 31 de março de 1964, um golpe militar foi deflagrado contra o governo legalmente constituído de João Goulart. A falta de reação do governo e dos grupos que lhe davam apoio foi notável. Não se conseguiu articular os militares legalistas. Também fracassou uma greve geral proposta pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) em apoio ao governo. João Goulart, em busca de segurança, viajou no dia 1o de abril do Rio, para Brasília, e em seguida para Porto Alegre, onde Leonel Brizola tentava organizar a resistência com apoio de oficiais legalistas, a exemplo do que ocorrera em 1961. Apesar da insistência de Brizola, Jango desistiu de um confronto militar com os golpistas e seguiu para o exílio no Uruguai, de onde só retornaria ao Brasil para ser sepultado, em 1976.

Presidente João Goulart, em algum momento durante o seu governo, transmite, temporariamente, o cargo de presidente para Ranieri Mazzili, presidente da Câmara dos Deputados (s/d).
Antes mesmo de Jango deixar o país, o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, já havia declarado vaga a presidência da República. O presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, assumiu interinamente a presidência, conforme previsto na Constituição de 1946, e como já ocorrera em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros. O poder real, no entanto, encontrava-se em mãos militares. No dia 2 de abril, foi organizado o autodenominado "Comando Supremo da Revolução", composto por três membros: o brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo (Aeronáutica), o vice-almirante Augusto Rademaker (Marinha) e o general Artur da Costa e Silva, representante do Exército e homem-forte do triunvirato. Essa junta permaneceria no poder por duas semanas.
Nos primeiros dias após o golpe, uma violenta repressão atingiu os setores politicamente mais mobilizados à esquerda no espectro político, como por exemplo o CGT, a União Nacional dos Estudantes (UNE), as Ligas Camponesas e grupos católicos como a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Ação Popular (AP). Milhares de pessoas foram presas de modo irregular, e a ocorrência de casos de tortura foi comum, especialmente no Nordeste. O líder comunista Gregório Bezerra, por exemplo, foi amarrado e arrastado pelas ruas de Recife.

Presidente João Goulart condecora o ministro Hermes Lima (entre set 1961 e junho 1963).
A junta baixou um "Ato Institucional" – uma invenção do governo militar que não estava prevista na Constituição de 1946 nem possuía fundamentação jurídica. Seu objetivo era justificar os atos de exceção que se seguiram. Ao longo do mês de abril de 1964 foram abertos centenas de Inquéritos Policiais-Militares (IPMs). Chefiados em sua maioria por coronéis, esses inquéritos tinham o objetivo de apurar atividades consideradas subversivas. Milhares de pessoas foram atingidas em seus direitos: parlamentares tiveram seus mandatos cassados, cidadãos tiveram seus direitos políticos suspensos e funcionários públicos civis e militares foram demitidos ou aposentados. Entre os cassados, encontravam-se personagens que ocuparam posições de destaque na vida política nacional, como João Goulart, Jânio Quadros, Miguel Arraes, Leonel Brizola e Luís Carlos Prestes.

Ademar de Barros, entre jornalistas, fala ao microfone (entre 1947 e 1951).
Entretanto, o golpe militar foi saudado por importantes setores da sociedade brasileira. Grande parte do empresariado, da imprensa, dos proprietários rurais, Carlos Lacerda e Cordeiro de Farias (1955)da Igreja católica, vários governadores de estados importantes (como Carlos Lacerda, da Guanabara, Magalhães Pinto, de Minas Gerais, e Ademar de Barros, de São Paulo) e amplos setores de classe média pediram e estimularam a intervenção militar, como forma de pôr fim à ameaça de esquerdização do governo e de controlar a crise econômica. Antônio Carlos Muricy, Magalhães Pinto e Aurélio Lira Tavares numa cerimônia de condecoração do primeiro (entre 1967 e 1969).O golpe também foi recebido com alívio pelo governo norte-americano, satisfeito de ver que o Brasil não seguia o mesmo caminho de Cuba, onde a guerrilha liderada por Fidel Castro havia conseguido tomar o poder. Os Estados Unidos acompanharam de perto a conspiração e o desenrolar dos acontecimentos, principalmente através de seu embaixador no Brasil, Lincoln Gordon, e do adido militar, Vernon Walters, e haviam decidido, através da secreta "Operação Brother Sam", dar apoio logístico aos militares golpistas, caso estes enfrentassem uma longa resistência por parte de forças leais a Jango.

John F. Kennedy recebe João Goulart na embaixada americana em Roma durante visita à Itália (1963).
Os militares envolvidos no golpe de 1964 justificaram sua ação afirmando que o objetivo era restaurar a disciplina e a hierarquia nas Forças Armadas e deter a "ameaça comunista" que, segundo eles, pairava sobre o Brasil. Uma idéia fundamental para os golpistas era que a principal ameaça à ordem capitalista e à segurança do país não viria de fora, através de uma guerra tradicional contra exércitos estrangeiros; ela viria de dentro do próprio país, através de brasileiros que atuariam como "inimigos internos" – para usar uma expressão da época. Esses "inimigos internos" procurariam implantar o comunismo no país pela via revolucionária, através da "subversão" da ordem existente – daí serem chamados pelos militares de "subversivos". Diversos exemplos internacionais, como as guerras revolucionárias ocorridas na Ásia, na África e principalmente em Cuba, serviam para reforçar esses temores. Essa visão de mundo estava na base da chamada "Doutrina de Segurança Nacional" e das teorias de "guerra anti-subversiva" ou "anti-revolucionária" ensinadas nas escolas superiores das Forças Armadas.
Os militares que assumiram o poder em 1964 acreditavam que o regime democrático que vigorara no Brasil desde o fim da Segunda Guerra Mundial havia se mostrado incapaz de deter a "ameaça comunista". Com o golpe, deu-se início à implantação de um regime político marcado pelo "autoritarismo", isto é, um regime político que privilegiava a autoridade do Estado em relação às liberdades individuais, e o Poder Executivo em detrimento dos poderes Legislativo e Judiciário.

Ernani do Amaral Peixoto por ocasião da entrega do projeto de reforma administrativa ao presidente João Goulart (dez 1963).
Já no início da "Revolução" ficou evidente uma característica que permaneceria durante todo o regime militar: o empenho em preservar a unidade por parte dos militares no poder, apesar da existência de conflitos internos nem sempre bem resolvidos. O medo de uma "volta ao passado" (isto é, à realidade política pré-golpe) ou de uma ruptura no interior das Forcas Armadas estaria presente durante os 21 anos em que a instituição militar permaneceu no controle do poder político no Brasil. Mesmodesunidos internamente em muitos momentos, os militares demonstrariam um considerável grau de união sempre que vislumbravam alguma ameaça "externa" à "Revolução", vinda da oposição política.

Antônio Carlos Muricy comanda o destacamento Tiradentes na marcha Juiz de Fora (31 março 1964).
A falta de resistência ao golpe de 1964 não deve ser vista como resultado da derrota diante de uma bem articulada conspiração militar. Foi clara a falta de organização e coordenação entre os militares golpistas. Mais do que uma conspiração única, centralizada e estruturada, a imagem mais fidedigna é a de "ilhas de conspiração", com grupos unidos ideologicamente pela rejeição da política pré-1964, mas com baixo grau de articulação entre si. Não havia um projeto de governo bem definido, além da necessidade de se fazer uma "limpeza" nas instituições e recuperar a economia. O que diferenciava os militares golpistas era a avaliação da profundidade necessária à intervenção militar.

Antônio Carlos Muricy, Joaquim Justino Alves Bastos, Homero Souto de Oliveira, Paulo Guerra e outros na Parada da Vitória (24 maio 1964).
Desde o início havia uma nítida diferenciação entre, de um lado, militares que clamavam por medidas mais radicais contra a "subversão" e apoiavam uma permanência dos militares no poder por um longo período e, de outro lado, aqueles que se filiavam à tradição de intervenções militares "moderadoras" na política – como havia acontecido, por exemplo, em 1930, 1945 e 1954 – seguidas de um rápido retorno do poder aos civis. Os mais radicais aglutinaram-se em torno do general Costa e Silva; os outros, do general Humberto de Alencar Castelo Branco.

Antônio Carlos Muricy e outros durante visita de Humberto Castelo Branco a Recife (junho 1964).
Articulações bem-sucedidas na área militar de um grupo de oficiais pró-Castelo e o apoio dos principais líderes políticos civis favoráveis ao golpe foram decisivos para que, no dia 15 de abril de 1964, Castelo Branco assumisse a presidência da República, eleito, dias antes, por um Congresso já bastante expurgado. O novo presidente assumiu o poder prometendo a retomada do crescimento econômico e o retorno do país à "normalidade democrática". Isto, no entanto, só ocorreria 21 anos mais tarde. É por isso que 1964 representa um marco e uma novidade na história política do Brasil: diferentemente do que ocorreu em outras ocasiões, desta vez militares não apenas deram um golpe de Estado, como permaneceram no poder.
Celso Castro

22.3.11

O funk do Obama no passinho "prá que lado eu vou?"

O Globo (22/3) publicou  uma execelente fotografia política - vale ouro o 'faro' do fotógrafo - que revela senão a indecisão ao menos a 'arapuca' política em que Barack Obama se meteu com sua autorização de intervenção na Líbia contra Kadafi
A foto foi feita ao pé da escada do avião de partida do Rio de Janeiro ao final da sua visita ao Brasil. Obama foi acometido daquela sincope rítmica que também acometeu Jânio Quadros numa época crise política numa fotografia também famosa..

17.2.11

Cresce a participação de negros no Congresso Nacional

Cresce a participação de negros no Congresso Nacional, aponta o articulista Alexandre Braga, Coordenador de Comunicação da UNEGRO (União Nacional de Negros pela Igualdade).

Aumenta a participação dos negros na política
Por: Alexandre Braga
Apesar do modesto crescimento de 3% da bancada negra ou afrodescendente – que pulou de 5% para 8,5% em 2011 –, com 43 deputados eleitos, a Frente Parlamentar da Igualdade Racial pode chegar a 220 deputados, número que mostra uma relativa força política do Movimento Negro para votar matérias de interesse da comunidade negra.
Por Alexandre Braga*O primeiro parlamentar federal negro eleito foi Eduardo Gonçalves Ribeiro, maranhense e filho de escrava. Anteriormente, já havia sido o primeiro afrodescendente a assumir um governo de província, a do Amazonas, de 1892 até 1896. Logo em seguida, é eleito senador, mas não toma posse. Em 1897, foi eleito deputado federal, exercendo o mandato até sua morte em 1900. De lá para cá, o voto étnico negro produziu interessantes situações de sucesso eleitoral, como Alceu Collares, no Rio Grande do Sul, Albuíno Azeredo, em Vitória, em 1991, ambos do PDT, Benedita da Silva, do PT, em 1989, Celso Pitta, do extinto PPB, em 1996, e o caso clássico de Leonel Brizola com seu “Socialismo Moreno”, mas que não conseguiu tirar a massa negra do processo de alijamento eleitoral, haja vista a pouca representatividade própria dos negros que se sagraram vitoriosos nas eleições de 2006 e 2008.
No entanto, cresceu em 3% a participação dos negros na política brasileira, que era de apenas 5% na última eleição de 2008. Em 2010, o Congresso Nacional elegeu 43 deputados e deputadas negros, chegando ao índice de 8,5% de negros no Parlamento brasileiro. O PT continua sendo o partido que mais elege negros no país: nas eleições de 2010, elegeu quase a metade dos 14 parlamentares autodeclarados afros. Em seguida vem o PMDB e PRB, partido do ex-vice-presidente José Alencar, com seis eleitos. Já o PCdoB, quatro; e PR, PSC, DEM, PSB e PTB elegeram apenas um deputado cada.
Merece destaque no apontamento (Balanço eleitoral do voto étnico negro) feito pela Unegro – União de Negros Pela Igualdade – o fato de no PRB estar despontando uma geração de lideranças políticas negras oriundas de importantes grupos evangélicos, muitas delas, inclusive, ocupantes de cargos da alta cúpula das principais igrejas, como Igreja Universal do Reino de Deus e Evangelho Quadrangular.
Quanto ao mapa geopolítico, a Bahia, além de ter a maior população negra, também tem a dianteira no quesito de representação parlamentar, elegendo a maioria dos negros aos cargos de deputado federal, num total de sete, mesma quantidade de Maranhão e Rio de Janeiro. Na segunda colocação ficou Minas Gerais, com cinco membros para a 54ª Legislatura da Câmara dos Deputados. Para as Assembleias Estaduais, foram eleitos 39 deputados estaduais ou distritais, a maioria filiada ao PT, 14; PTB, quatro; PSB e PRB, com três deputados cada, quase todos com domicílio eleitoral na Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro, estados que mais elegem deputados estaduais negros do Brasil.
Apesar do modesto crescimento de 3% da bancada negra ou afrodescendente – que pulou de 5% para 8,5% em 2011 –, com 43 deputados eleitos, a Frente Parlamentar da Igualdade Racial pode chegar a 220 deputados, número que mostra uma relativa força política do Movimento Negro para votar matérias de interesse da comunidade negra. De acordo com os pesquisadores Amaury de Souza e Nelson do Valle, os negros têm comportamento eleitoral diferente dos brancos. Por exemplo, em 1960 os negros votaram mais em Jango, o que comprova a vocação em votar em candidatos do campo trabalhista e populista.
Outros exemplos são as eleições de Brizola e de Benedita da Silva para o governo do Rio de Janeiro. Essa guinada deu-se acentuadamente a partir da Constituição de 1988 ao permitir o voto dos analfabetos, com o qual milhões de cidadãos negros foram alçados ao eleitorado. Contudo, o sociólogo Antonio Sergio Guimarães, autor do livro Classes, Raças e Democracia, ressalta que o voto étnico não é uma exclusividade da comunidade negra, pois já é utilizado pelos italianos, sírio-libaneses e portugueses. Porém, os 43 deputados federais de origem afrodescendente empossados em 1º de fevereiro comprovam que ainda é forte a segregação racial quanto à representação política brasileira, pois de todo o Congresso Nacional apenas 8,5% são compostos por negros, e há somente dois senadores da República de etnia negra.
Já a Frente Negra do Congresso Nacional, criada em maio de 2007, tem uma composição bem melhor e até certo ponto expressiva, 220 deputados e quatro senadores, sendo o PT o partido que mais possui membros, com 70 deputados, seguido pelo PMDB, com 44, o DEM com 12 e o PSB com 11. Os senadores dessa frente são oriundos do Bloco PT/PCdoB. No entanto, somente nove partidos políticos, dos 27 legalmente constituídos no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), têm secretarias dedicadas aos negros ou de setorial afro. São eles: PHS, PT, PMDB, PDT, PTB, PRB, PSTU, PCO e PSDB, com o seu Tucanafro.
*Alexandre Braga é articulista, coordenador de Comunicação da Unegro (União de Negros Pela Igualdade) e tesoureiro do Fomene (Fórum Mineiro de Entidades Negras).

7.2.11

O Bom, o Mau e o Feio

O Bom, o Mau e o Feio. Para o bom entendedor poucas palavras bastam.




Em sequencia a Veja apresentou as duas capas: Luciano "Bonzinho" Hulck e Fernandinho "Mau" Beira Mar. Para o papel do Feio foi escolhido o Luis Carlo Gá, designer e militante negro que ousou "peitar" um grupo de produtores de cultura negra que excluiram de suas mesas temáticas as mulheres negras como palestrantes. 

O "ato falho" de exclusão das mulheres nas mesas temáticas gerou um forte protesto protagonizado por mulheres negras reunidas no grupo "Acordo de Damas" do Rio de Janeiro e outras militantes negras de diversas regiões e países através do Facebook. O grupo local compareceu ao Seminário - Inserção e Realidade do negro - de título pomposo e descontextualizado, no mínimo pelo ato falho da produção, promovendo uma verdadeira "intervenção" no melhor estilo da militância dos anos 70 alterando a programação com a exigência de que mulheres negras compussessem a mesa. Em manobra sobre um acordo prévio entre o Gá dos membros (masculino) do grupo -contestador feito com Haroldo Costa, um dos produtores, o ator-produtor Milton Gonçalves fez um apelo à platéia para que escolhesse outro nome diferente do acordado. Foi escolhida entre os presentes a professora Dulce, Presidente do COMDEDINE - Conselho para o Desenvolvimento e Direitos do Negro do Município do Rio de Janeiro. A partir daí o Seminário adquiriu uma composição menos machista porém marcado pela insatisfação prolongada da produção e de membros da mesa que protagonizaram cenas de provocações e agressões verbais mais ou menos dissimuladas contra as manifestantes. O designer Gá entrou na berlinda por ter feito diversos cartazes cômicos alusivos ao evento e numa telefonema desaforada por um dos integrante de uma das mesas foi denominado o Feio. Além disso, os shows apresentados pelo Festival Afro na Teatro SESC Ginástico no centro do Rio de Janeiro foram excelentes e gratuitos bem como as oficinas culturias realizadas no Palácio do Catete. Depois do furdúncio do Seminário acredita-se que as mulheres negras não serão mais esquecidas por qualquer produção cultural em que se pretenda discutir a "inserção do negro na realidade", ficou a lição da militância.


Cartaz do designer Luiz Carlos Gá ironizando os equívocos ditos no Seminário do Festival Afro.

Fontes: cartaz publicado no Facebook, Blog do Miro e Blog Lado B

18.9.10

Erenice Guerra: o poder embranquece

O caso que resultou na demissão da Ministra-Chefe da Casa Civil Erenice Guerra é mais um daqueles que caracterizam a política das classes dominantes e de longa duração nesta grande senzala em que teimam em nos manter como se fossemos escravos-de-ganho, em vez de cidadãos.
Os casos de nepotismos, corrupção, falta de ética praticados pela Erenice ou seu entorno familiar são comprometedores. Inútil dizer que isto sempre foi prática denunciada pelo PT, no entanto, quadros partidários no governo teimam em repetir e tornar-se alvo de seus opsitores. Bem feito, e que paguem caro.


A ex-Ministra Erenice é uma mulher negra ou foi. É um daqueles casos (outra vez) em que o poder além de envelhecer, engordar e adoeçer, também embranquece. Não fosse apenas pela idade em que até os cabelos perdem seu vigor e ficam mais lisos (das poucas coisas que alisam) e com a vida cavernosa dos áulicos do poder em que até a pele perde o viço a ex-Ministra Erenice sofre o efeito abóbora. 

Bem a ministra caiu, o movimento negro nem a saudou quando entrou nem deu confiança quando caiu, episódio que nem passa perto quando a Ministra Matilde Ribeiro brincou com seu cartão corporativo, éramos todos solidários, afinal quem não erra?


Mas Erenice tem raízes mais profundas na prática política brasileira, é a política das elites que ela quis repetir, acobertar ou omitir-se, afinal, a família tava toda lá - marido, filho, genro, irmãos - defendendo negócios de terceiros ou próprios no governo. Sem dúvida ela teve seus acertos estava lá por competência, mas errou por ganância ou por não saber escolher a família que teve - o que é puro delírio. Por pouco não virava um clã como tantos outros que existem na vida pública e nos negócios com o governo. Mais uma vez vale a lição, aprende o PT, o governo, e nós aplaudimos uma safadeza a menos!

17.8.10

Midiatização das eleições em 2010






Com o início da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na tv para a eleição 2010 a midiatização das eleições se destaca como um fenômeno social importante mas que terá nestas possivelmente um papel menos decisivo diante da preferência já consolidada dos eleitores pela candidata do governo Lula, Dilma Roussef.


Passados 47 anos desde que o Código Brasileiro de Comunicações criou em 1963 o horário eleitoral gratuito na televisão as eleições parlamentares e executivas nos níveis federal, estados e municípios ingressaram numa nova era da comunicação de massa.
O papel da TV se tornou crucial para as comunicação entre os poderes e a população substituindo em grande parte o rádio e a imprensa e sobretudo transformando as relações entre os cidadãos e eleitores com os políticos e o governo.


A influência da televisão nas eleições, apesar de sua importância, é relativa. Pesam os fatores conjunturais  e mais ainda a agenda política criada ao longo do ano através dos noticiários, telenovelas, etc. Além disso, pesa também o papel complementar que as outras mídias, sobretudo, a internet que aumenta sua influência complementando a TV no reforço da agenda política.

A agenda política que predomina é a do interesse das grandes corporações nacionais e internacionais que estão cada vez mais equilibrados pelas características da economia globalizada e que possuem de certa forma uma agenda única pela defesa e expansão do mercado e pela financeirização da economia que são apresentados para a sociedade como espetáculos de consumo.

Sobretudo a televisão no Brasil após a ditatura militar, tornou-se também decisiva na construção da imagem do político que deve cada vez mais se parecer com um ator que cumpre um roteiro - a agenda política que a mídia constrói.

As eleições de Collor (1989) e FHC (1994 e a reeleição de 1998) são exemplares do poder e influência exercidos pela televisão. A isto se deve ainda acrescentar o papel desempenhado pelas televisões locais majoritariamente em mãos de políticos regionais e agora também das Igrejas católicas e evangélicas - com representantes parlamentares - que distribuem entre si as concessões que cabem ao Congresso e ao Executivo aprovar e outorgarem, e que são teoricamente públicas. Dessa forma, as Tvs locais encontram-se sob o controle dos mesmos grupos que sempre dominaram a política nos estados e municípios caracterizando um "coronelismo eletrônico".

Noutro sentido, o poder da mídia é auto-regulado, sobretudo em períodos eleitorais em que a exposição excessiva do candidato tende a saturação do eleitor, daí a sofisticação e importância do marketing político que faz a animação e a dosagem da imagem do político de modo a não entediar o público.

Na mídia, o político e a política são transformados em produto regulados por técnicas de propaganda alimentadas por pesquisas que determinam o caminho que serão adotados de modo a "agradar" aos eleitores, por isso, tanto a imagem como a plataforma política oscila procurando satisfazer a todos os públicos visados. 

Ora um político é a favor do controle do mercado, ora é a favor do mercado desregulado, da mesma forma oscilante, ambígua ou mesmo contraditória são apresentadas inúmeras questões polêmicas para a sociedade como a reforma agrária, redução da jornada de trabalho, segurança pública, meio ambiente, aborto, união homessexual, cotas racias, entre outras.

Com a midiatização da sociedade, a política tornou-se um espetáculo contínuo, as eleições são apenas um dos momentos máximos do show.

Nesta eleição de 2010, algumas características específicas da capacidade de influência da mídia estão mudadas. Primeiro, a ampla preferência pela candidata do Governo,  Dilma Roussef que vem tendo transferida para si o potencial de votos do Presidente Lula reduzindo a capacidade de influência direta da televisão. Por outro lado, o aumento da vigilância democrática com novos mecanismo de controle sobre as manipulações da televisão como exemplarmente ocorridos na campanha de 1989 no embate Lula x Collor e depois nas campanhas eleiroais de 1994 e 1998 entre Lula e FHC. 


Em segundo lugar, o papel da internet como um novo meio de propaganda e debates, circulação de idéias e posições políticas que apesar de seu papel ainda limitado nesta eleição tem uma crescente influência ampliando o fenômeno da midiatização das eleições. E com a universalização da internet novos segmentos sociais terão mais acesso à fontes independentes e plurais de opinião e informação aumentando a sua capacidade de escolha e reduzindo a pressão maciça da televisão.

Pode-se ressaltar ainda que, mantendo-se a tendência das últimas três eleições presidenciais em que o candidato eleito foi aquele que começou a propaganda eleitoral na televisão com uma significativa preferência na intenção de voto dos eleitores, fato que ocorre nestas eleições com a candidata Dilma Roussef do PT.

Desta forma, as eleições de 2010 apesar de sua crescente midiatização não está neste momento submetida ou ameaçada dado ao acerto das políticas governamentais tanto para os setores populares, de classe média como das elites que proporcionaram um amplo consenso em torno do Presidente Lula. 


Ao que tudo indica o poder pararelo da mídia hegemônica foi neutralizado inclusive pelo seu uso mais aprimorado pelas forças políticas que foram antes derrotadas com o seu uso desigual. Resta diante da midiatização incontrolável da sociedade não só sua expansão para todos os setores da sociedade como também da criação de mecanismo de regulação que assegurem sua distribuição adequada à diversidade social através não da representação fantasiosa que hoje é apresentada, mas da posse e uso democrático dos meios de comunicação de massa.

10.5.10

13 de maio - Dia do Trabalhador Negro?

O dia 13 de maio (1888) ficou marcado na nossa memória como o dia do fim da escravidão, da Abolição da Escravatura ou de proclamação da Lei Áurea como foi denominada pela história oficial e que foi por mais de meio século comemorado com a efígie da Princesa Isabel, a Redentora dos escravos.

 Trabalho escravo e tortura: indisociáveis

Dois anos antes em 1866 em Chicago numa sequencia de acontecimentos no mês de maio, o movimento operário decretou uma greve de trabalhadores contra a jornada de 16 horas de trabalho pela de 8 horas. Durante as manifestações uma bomba foi jogada nos policiais por anarquistas matando um policial o provocou uma violenta repressão com dezenas de mortes de ambos os lados.  

Em 1889 a Segunda Internacional Socialista reunida em Paris aclamou o dia 1º de maio como o dia de luta pela jornada de 8 horas de trabalho.

No Brasil, a República vem a reboque do fim da escravidão e o negro, o ex-escravo passa à condição de trabalhador livre e ainda é violentamente reprimido pelo Estado como potencial ameaça à ordem social. 

As lutas de resistência dos escravos através dos quilombos, levantes e a luta política do movimento abolicionista feito por intelectuais e republicanos colocaram para as classes dirigentes a questão da ameaça daquela maioria negra, indígena e mestiça que se formara na base da sociedade. O Estado passa então a incentivar a imigração de grupos europeus para promover um equilíbrio populacional e um "embranquecimento" da população. Ao lado disso, Monteiro Lobato incorpora e traduz na sua obra infantil os ideias eugênicos de exterminação dos negros criando um consenso natural da depreciação do ser e da imagem do negro.

"Operários" de Tarsila do Amaral de 1933 retrata a classe operária industrial brasileira, o setor de trabalho mais desenvolvido onde o negro é minoria

O movimento operário brasileiro só se constitui efetivamente no século XX sendo composto em sua maioria pelo próprios trabalhadores europeus e seus descendentes e com forte influência anarquista, socialista e comunistas. Por seus interesses, como o privilégios no acesso aos postos de trabalho e à educação  a maioria desses trabalhadores ignorava ou se omitia quanto às necessidades da população negra que criava à parte suas próprias formas de organização que vão tomando a forma de "manifestações culturais". Ainda minoria ou organizados à margem do movimento operário muitos trabalhadores negros participaram de diversas lutas operárias por melhores condições de trabalho e salários.

A luta do trabalhador negro é ainda uma história a ser reconstituída no âmbito da história do trabalhador brasileiro. E talvez o reconhecimento do 13 de maio ainda que não consagre o resultado de uma luta direta do negro não deixa de carregar um significado invertido. Esta inversão de significado do 13 de maio como um novo símbolo de resistência já foi feita pelo movimento negro ao longo dos anos 80 como o "dia da farsa da Abolição" para confrontar com o significado oficial fazendo emergir do esquecimento uma história de lutas e personagens negros esquecidos ou secundarizados.

Nesta crítica ao sentido oficial do 13 de Maio que também recupera a memória histórica e cultural marginalizada se transformam significados e cria novos sentidos é de onde se poderá extrair um conteúdo de novas inspirações e referências para as lutas políticas contemporâneas e para a própria construção da identidade do negro. E neste movimento resignificar uma história do trabalhador (homens e mulheres)  negro na sua especificidade dada pelas formas de trabalho e das lutas de resistência que se deram à margem da história dos trabalhadores brancos ou que sob a sua hegemonia marginalizou aquelas formas e expressões de resistência.

Talvez assim se  possa consagrar melhor esta ou outra data como um resultado das lutas diretas e contemporâneas pelo fim do racismo institucional que se desenvolve nas lutas pelo acesso pleno ao trabalho e equiparação salarial,  pelo fim do racismo na educação, pelo fim do racismo na mídia, pelas cotas e pela reparação.

Revisado em 1/5/2011

28.4.10

Movimento pardo-mestiço à procura de uma causa

Sigo no meu twiteer.com/josric a lista de mensagens do movimento pardo-mestiço - twitter.com/foromestizo - que são meus adversários políticos e ideológicos. Segue a mesnagem deles:

foromestizo PL de dep. petista CRIA Territorios Preservação da identidade racial de descendentes de Imigrantes brancos http://ow.ly/1BXMe

O link desta mesagem conduz ao comentário do grupo e a matéria publicada pela Agência Câmara. Neste comentário eles alertam em tom sensacionalista para o projeto de criação das Unidades de Preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro. O projeto de lei - PL 3.056 de 2008 - veja aqui) que em sua justificativa destaca a importância que diversos povos imigrantes europeus (com trecho citado de Darcy Ribeiro) e asiáticos tiveram em algumas regiões brasileiras especialmente no sul e sudeste. A ênfase  nos povos brancos serve para ressaltar a necessidade de se preservar "patrimônio cultural imaterial dos outros grupos participantes do processo civilizatório nacional com base no §1º do art. 215 da Constituição Federal que diz: O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.

Até ai, não existe nada mais do que a própria constituição prevê. O PL do Deputado Angelo Vanhoni (PT- PR) busca regulamentar dessa forma um dispositivo que contemple aqueles "outros grupos participantes" da cultura nacional como os povos negros e indígenas. Mas porque o alarde?

O comentário do blog Nação Mestiça (nacaomestica.org) procura induzir à manifestações contra o PL por sua tramitação entre comissões que deste modo ocorre sem discussão pública. Tentam com isso polemizar sobre o PL buscando provocar o público em favor  de manifestações junto aos deputados para que o PL seja encaminhado ao Plenário da Câmara para discussões públicas. Pretendndo com isso, menos do que questionar se todos os povos tem direito a terem reconhecidos e preservados pelo Estado suas tradições, mas buscando certamente, voltar a discutir a legitimidade de que os povos negros e indígenas tenham assegurados seus direitos de culto à sua memória e sobretudo ao fortalecimento de suas identidades. 

Pardacistas e negrocidas tentam assim, refrescar sua causa única de negarem sua própria identidade negra e indígna travestida num ilusório movimento de pardos e mestiços de raiz histórica fascista desprovido de outro referencial político ou de identidade. Aliados dos setores mais reacionários e racistas da sociedade brasileira como Ivone Maggie, Demétrio Magnoli, Ives Gandra. Ali Kamel entre outros e instituições da mídia como O Globo, etc. o movimento pardo-mestiço tenta cumprir sua finalidade de servir aos seus dominadores.

4.2.10

Nós Podemos? (2)

Depois de falarmos para o PT (veja a postagem anterior), agora falamos com o DEM. (Falamos, isto é, força de expressão, para estes questionamentos que envolvem interesses coletivos da população negra feitas por personalidades negras).
Transcrevo uma mensagem do jornalista Roberto de Carvalho.

UM DURO APRENDIZADO NEGRO

ROBERTO DE CARVALHO*

Há dez anos, o Congresso Nacional não consegue aprovar o Estatuto
da Igualdade Racial (EIR), que estabelece mecanismos importantes de ascensão
negra no serviço público federal, e neste caso, se aprovado, pode desencadear
políticas idênticas nos 27 estados e 5.600 municípios brasileiros.

Assim, parte da dívida histórica da sociedade brasileira com a
comunidade negra – 75 milhões de pessoas - poderia ser sanada, pois, como todos
os estudiosos reconhecem, após a abolição, o negro foi jogado ao “deus-dará”, e
acabou incorporando um estereótipo terrível: preto, favelado e marginal.

Foi contra este estereótipo que o antigo PFL – hoje DEM – durante
a campanha de César Maia ao governo do estado, em 1998, se permitiu a discussão
em suas hostes partidária. Neste sentido, no Rio de Janeiro, o então PFL percebeu
a importância do voto negro e de sua história de eterno cidadão de “segunda
classe”.

Era um fato constatável a olho nu e também referendado pelo IBGE,
cujos indicadores - censo de 1990 - mostravam que o negro era a categoria
racial mais atrasada do país, sendo campeão dos índices negativos.

Com o apoio do então deputado federal Arolde de Oliveira, foi
criado o Comitê Afro-Liberal, grupo negro de apoio à campanha de César Maia ao
governo estadual. Pela sua qualificação, o grupo acabou se tornando uma referência
no movimento negro. Assim, em 1998, convidado pela executiva nacional do
partido, esteve em Brasília discutindo a possibilidade de o Afro-Liberal se
espalhar em todos os estados sob a coordenação do antigo PFL.

Naquele momento, o fato levou os militantes do movimento negro
fluminenses a ficarem perplexos e sem alternativas: como um partido conservador
estava na frente deles em políticas públicas de recuperação das desvantagens
históricas entre negros e brancos? Por que, eles, do movimento negro
tradicional, não apareciam na mídia como o Afro-Liberal? Reuniões e mais
reuniões destes militantes afro-liberal foram feitas e, mesmo assim, não
conseguiam entender este momento importante na conjuntura política de 1998.

Onze anos depois deste importante movimento – o Programa de
Governo do Afro-Liberal (1998) continua sendo uma referência para o movimento
negro no Rio, pois, ali, foram elencados grandes propostas de trabalho para
eliminar a discriminação e incluir o negro nas demandas do desenvolvimento
social.

No entanto, o quê este importante grupo projetou – políticas
públicas para a comunidade negra – vem sendo obstacularizado no Congresso
Nacional pelo próprio DEM, antigo PFL, principalmente na figura do senador
Demóstenes Torres. Este, resistente a políticas para negros, por
conseguinte, desconhece as incursões do
partido pelo lado racial no final dos anos 1990.

Neste momento, é fundamental, na minha avaliação, que as
lideranças do DEM entendam uma história: no Rio, pelo menos, o partido estará
apoiando uma negra, Marina Silva, à Presidência da República.

Neste caso, a resistência partidária no Congresso Nacional contra
o Estatuto da Igualdade Racial (EIR) é uma bola fora pesadíssima na campanha
fluminense do DEM.

Por exemplo: como Marina, que é negra, irá responder a uma indagação
da imprensa segundo a qual um dos partidos que lhe apóia no Rio resiste
tenazmente a implementação de políticas para uma comunidade que ostenta os piores
índices de negatividade em cidadania ?

Acreditamos, neste momento, ser fundamental, que as lideranças do DEM
mergulhem nas eleições de 1998-1999, no Rio, onde o Afro-Liberal despontou.

ROBERTO DE CARVALHO é jornalista e publicitário, um dos fundadores do
Afro-Liberal/ PFL, (DEM).

30.1.10

Nós Podemos?

Concordo, não temos um Obama brasileiro, aquela unanimidade de 50% que mobilizou nos EUA as suas forças mais progressistas e também alguns oportunistas reacionários que jogam com o caos social.
Lembro do dito popular:  "cada povo tem o político que merece!"
E nossos políticos negros e representantes variados na estrutura pública são aquilo que merecemos, ou não?

Certo, muitos chegam lá em nosso nome, mas sem nosso consentimento, é a democracia. 
Mas há também a responsabilidade pública que é em geral esquecida e um dos seus nomes é transparência, que quer dizer comunicação, e não, invisibilidade.

Sempre existem os mais satisfeitos e acomodados com os "nossos representantes"  que se portam como se fossem uma espécie de Corte. 
Também há os inquietos, talvez mais exigentes e nem sempre certos ou coerentes, às vezes também assemelhados aos bobos da Corte. 

Mas quando penso na importancia das novas ferramentas de comunicação criadas com a internet e tento identificar o esforço de comunicação dos políticos e ocupantes de cargos públicos no campo político negro, me pergunto: "Nós Podemos?"

Quem, você acha, ilustraria esta postagem?

25.11.09

IPCN - história e decadência do Movimento Negro no Rio de Janeiro

O IPCN vai completar em 2010 seus 35 anos de existência tendo cumprido um importante papel na formação do movimento negro no Rio de Janeiro com repercusões em todo o Brasil nos seus primeiros 15 anos. Não foram poucas as suas contribuições na formação de quadros de militância, fortalecimentos de setores comunitários, estudantis e sobretudo de mulheres negras. Também na área cultural foram fortalecidas muitas iniciativas de grupos e talentos individuais. Além disso, o IPCN - Instituto de Pesquisas das Culturas Negras contribuiu na consolidação do ideal democrático durante o período da ditadura militar através da mobilização de jovens e a de alguns militantes de velha esquerda que puderam fosse através da cultura negra, do combate ao racismo e da afirmação da identidade negra questionarem o autoritarismo militar, o etnocentrismo europeu, a elitização cultural, a marginalização popular entre outras questões presentes na agenda política da época.
Ma o IPCN atingiu um limite, cumpriu um papel e entrou em decadência nos anos 90, abandonado pela militância, seus quadros migraram para outros movimentos sociais, ongs, partidos e cargos governamentais. O IPCN funcionou ao logo de duas décadas como um laboratório político, uma mini-federação, um verdadeiro quilombo onde se falavam diversas linguagens, conviviam diversos interesses de grupos, identidades e projetos. Com a consolidação da democracia neo liberal com seus disfarces populistas prevaleceu a cooptação, o oportunismo entre outras mazelas políticas e o IPCN mostrou suas fragilidades entrando em decadência e abandonado, depredado, invadido, roubado em seus equipamentos e acervo, violado em sua memória tornou-se moradia de seus fantasmas.

IPCN - Instituto de Pesquisa das Culturas Negras: foto de Adagoberto Arruda

Agora no XXI ao completar 35 anos o IPCN apenas vive de lembranças não tem mais o que oferecer, não pode mais contribuir para o debate político nem abrigar a militância em busca de um espaço e ambiente inspiradores para suas questões e desafios atuais. Hoje, o IPCN é um espaço mórbido, precocemente envelhecido, como aquela pessoa decadente pelo corpo velho mal cuidado, que mal sustenta-se alimentando seu resto de vida em fragmentos de memória, cacos de objetos e da poeira que ainda pode restar nas frestas dos seus portais, degraus e ranhuras do piso onde outrora - e nem faz tanto tempo - sua militância circulava energética, esperançosa e animada pelas questões que a construção da identidade negra provocava e desafiava. Sem renovar seus quadros enredado em má administração e falta de idéias o IPCN reflete ao fim da primeira década do XXI a mudança e a perda de rumo de grande parte do movimento negro no Rio de Janeiro em que seus novos protagonistas prescindem de sua existência. O IPCN deu sua contribuição fundamental, mas hoje é apenas um quase esqueleto que se sustenta com o beneplácito do tempo que ainda não pulverizou sua estrutura física até a exaustão mas que segue exposto em suas veias, feridas e cicatrizes.
Feliz aniversário seria por demais irônico, meus respeitos parece mais adequado.
Saiba mais sobre o IPCN em seu blog.

6.10.09

Efeitos do colonialismo da Bélgica perduram no genocídio de Ruanda

A galeria dos grandes genocidas da humanidade recebe Idelphonse Nizeyimana - ex-chefe dos Serviços de Intelegência de Ruanda - acusado de ser o mentor do assassinato de 800 mil tutsi e hutus moderados.  


Entenda os fatos que levaram ao genocídio em Ruanda

Da BBC

Em um período de cem dias entre abril e junho de 1994, cerca de 800 mil pessoas foram mortas em Ruanda, no que ficou conhecido como o maior genocídio africano dos tempos modernos.

Mesmo para um país conhecido por sua história turbulenta, a escala e a rapidez do genocídio chocaram o mundo.

A maioria dos mortos era da etnia tutsi, e a maioria dos autores das mortes, da etnia hutu.
O estopim do massacre foi a morte do presidente do país, Juvenal Habyarimana, um hutu, quando seu avião foi derrubado ao sobrevoar o aeroporto da capital, Kigali, no dia 6 de abril de 1994.
Um juiz francês culpou o atual presidente de Ruanda, Paul Kagame, que na época era líder de um grupo rebelde tutsi, e alguns de seus parceiros pelo ataque ao avião.
Kagame nega veementemente responsabilidade pela morte do ex-presidente e diz que o acidente foi provocado por extremistas hutus, de forma a criar um pretexto para colocar em ação planos de exterminar a comunidade tutsi.
Quem quer que seja o responsável, o ataque deu início a uma explosão de violência que, poucas horas depois, se espalhou pela capital e por todo o país, e só começou a diminuir três meses depois.
A morte do presidente, no entanto, não foi a única causa do genocídio.

Histórico de violência
Tensões étnicas em Ruanda não são novidade. Sempre houve conflitos entre a maioria hutu e a minoria tutsi, mas as hostilidades entre os dois grupos aumentaram consideravelmente desde o período colonial.
Os dois grupos étnicos são na verdade muito similares - falam a mesma língua, vivem nas mesmas áreas e seguem as mesmas tradições.
Entretanto, tutsis tendem a ser mais altos, mais magros e de pele um pouco mais clara do que a dos hutus. Alguns acham que a etnia teria sua origem na Etiópia.
Durante o genocídio, os corpos dos tutsis foram atirados em rios. Seus assassinos diziam que os mortos estavam sendo enviados de volta para a Etiópia.
Quando os colonizadores belgas chegaram à região em 1916, produziram carteiras de identidade classificando as pessoas de acordo com sua etnia.
Os belgas consideravam os tutsis superiores aos hutus.
Naturalmente, os tutsis gostaram da idéia e durante cerca de 20 anos desfrutaram de empregos e oportunidades de educação melhores do que os dos vizinhos hutus.
O ressentimento entre os hutus foi crescendo gradualmente e culminou em uma série de revoltas em 1959.
Mais de 20 mil tutsis foram mortos e muitos fugiram para países vizinhos como Burundi, Tanzânia e Uganda.
Quando a Bélgica deixou o poder e deu independência a Ruanda, em 1962, os hutus assumiram o governo.
Nas décadas seguintes, os tutsis tornaram-se os bodes expiatórios em todas as crises.

Rumo ao genocídio
No período que antecedeu o genocídio, a situação econômica piorou e o presidente Juvenal Habyarimana começou a perder popularidade.
Ao mesmo tempo, refugiados tutsis em Uganda - com o apoio de hutus moderados - começaram a formar o movimento Rwandan Patriotic Front (Frente Patriótica Ruandense), ou RPF, liderado por Kagame.
O objetivo do grupo era derrubar Habyarimana e garantir seu direito de retorno à terra natal.
Habyarimana decidiu explorar essa ameaça como uma forma de trazer dissidentes hutus de volta para o seu lado. Tutsis dentro de Ruanda foram acusados de ser colaboradores do RPF.
Em agosto de 1993, após vários ataques e meses de negociações, um acordo de paz foi assinado entre Habyarimana e o RPF, mas isso não foi suficiente para diminuir as tensões.
O ataque contra o avião de Habyarimana, no início de abril de 1994, foi a última gota.
Ainda não foi estabelecido quem matou o presidente - e, com ele, o presidente de Burundi e outros altos funcionários do governo.
O efeito do ataque, no entanto, foi instantâneo e catastrófico.

Assassinatos em massa
Em Kigali, a guarda presidencial iniciou imediatamente uma campanha de vingança.
Líderes da oposição política foram mortos e, quase imediatamente, começou o assassinato em massa de tutsis e hutus moderados.
Dentro de horas, recrutas foram enviados a todo o país para executar a onda de crimes.
Alguns tutsis conseguiram escapar para campos de refugiados.
Entre os primeiros organizadores do massacre estavam militares, políticos e homens de negócios, mas em breve vários outros aderiram à campanha.
Encorajada pela guarda presidencial e por propaganda massiva em estações de rádio, formou-se uma milícia não-oficial chamada Interahamwe (o nome significa "aqueles que atacam juntos"). No auge da violência, o grupo reuniu 30 mil pessoas.
Soldados e policiais encorajaram cidadãos comuns a participar. Em alguns casos, os militares obrigaram civis hutus a assassinar tutsis vizinhos.
Os participantes com freqüência recebiam incentivos, como dinheiro ou comida. Em alguns casos, os mandantes dos crimes disseram aos hutus que poderiam se apropriar das terras dos tutsis que assassinassem.
De maneira geral, não houve interferência da comunidade internacional durante o genocídio.
As tropas da ONU se retiraram do país após a morte de dez soldados.
No dia posterior à morte de Habyarimana, o RPF retomou seu ataque contra as forças do governo e várias tentativas da ONU de negociar um cessar-fogo fracassaram.

Depois do genocídio
Finalmente, em julho, o RPF capturou Kigali. O governo se desintegrou e o RPF declarou um cessar-fogo.
Tão logo ficou aparente que o RPF tinha sido vitorioso, cerca de 2 milhões de hutus fugiram para o Zaire (hoje República Democrática do Congo).
Entre os refugiados estão muitas pessoas que, mais tarde, foram acusadas de envolvimento nos massacres.
Inicialmente, um governo multi-étnico foi formado, com um hutu, Pasteur Bizimungu, como presidente, e Kagame como seu vice.
Mas a dupla mais tarde entrou em desacordo e Bizimungu foi preso sob acusação de incitar violência étnica. Kagame assumiu a Presidência.
Embora o massacre em Ruanda tenha terminado, a presença de milícias hutus no Congo levou a anos de conflitos no país vizinho.
O atual governo de Ruanda, liderado por tutsis, já invadiu o Congo duas vezes, dizendo querer eliminar as forças hutus da região.
Nesse meio-tempo, um grupo rebelde tutsi no Congo continua ativo, argumentando que não vai depor armas porque, se o fizesse, sua comunidade estaria sob risco de genocídio.

A maior força de paz do mundo, hoje posicionada no Congo, não conseguiu resolver o conflito.

Via G1

15.5.09

Os negros apoiariam um terceiro mandato para Lula?

A promessa de um futuro melhor é recorrente da política, dos partidos e dos seus líderes.
Uma dessas promessas e algumas realizações (ainda tímidas) interessa particularmente ao movimento negro. Elas tem sido assumidas pelo governo Lula como a lei 11.645 - lei do ensino afro e indígena e o status de ministério para a Seppir - Secretaria de Promoção da Igualdade Racial. Ainda que em cada avanço se observe uma resistência crescente dos conservadores racistas ameaçados na velha ordem dos seus privilégios - cotas só para eles: as históricas. Reações que se não emperram, ressoam na mídia como se uma possibilidade de avanço na redução das desigualdades raciais fosse uma provocação, uma vingança, um "racismo dos negros".

Estas veiculações são geralmente promovidas pela mídia especialmente da Globo (televisão e jornais) e pela revista Veja ao serviço que se colocam dos herdeiros da velha ordem política brasileira todos fortemente instalados na Cãmara e no Senado. Pela mídia eles são alçados ao estrelato político juntamente com a representação da elite intelectual conservadora: os "113 contra as cotas".

Do outro lado deste poder de feições oligárquicas a hegemonia política se refaz com a ascensão do PT, apesar das críticas sinceras e das falsas críticas. Uma delas chama especialmente a atenção e se deu numa cena da telenovela das 18h "Paraíso" onde o "Prefeito" da cidade após uma conversa com um velho jornalista que volta à ativa na rádio local desabafa numa conversa familiar declarando que o povo é acomodado com a corrupção.
Este discurso numa telenovela chama a atenção pela autoreferência que a televisão faz sobre si mesma colocando-se como portadora, promotora e legitimadora do combate à corrupção. Esta posição é um exemplo do que a mídia hoje busca assugurar com um papel protagonista trazendo para si, muito mais do que a crítica, a instrumentalização da opinião pública, substituindo-a. Com isso desloca o foco da própria corrupção que ela acoberta e promove, mas isto, é apenas a ponta de uma montanha no fundo do oceano.

A questão que quero chegar é como diz o Lula: "- Nunca antes na história deste país...". Será que as realizações e promessas do governo Lula para a população negra brasileira através das medidas diretas e indiretas que veêm assegurando uma certa melhoria na qualidade de vida e padrões de consumo sustentariam um terceiro mandato presidencial?

Entre outras questões importantes mais ou menos atacadas de frente pelo governo Lula se destaca a questão racial que cada vez mais integra a sua agenda política, ainda mais valorizada pela eleição de Barak Obama que o proclamou: "- é o cara!", levando Lula ao feliz arroubo: " a crise foi criada pelo loiros de olhos azuis!"

Em suas críticas de conotação racial Lula vem promovendo uma base para uma nova repactuação da hegemonia na sociedade brasileira para substituir a antiga ordem em que
o racismo assegura posições privilegiadas de amplos setores sociais que falseada pelo mito da democracia racial o movimento negro não aceita mais.

Diante deste cenário, também se pauta a questão do terceiro mandato do Lula que retorna à cena política por iniciativa de um deputado do PT após a comemoração dos 50 anos do Sindicato dos Metalúgicos na qual ele é sem dúvida, a grande figura política.
Pode até ser ressaca política da festa, mas o quadro de crise, a aparente frágil saúde da pré-candidata Dilma Roussef, a não existência de uma outra candidatura alternativa não contribuem para isso?

O que você acha, qual é a sua opinião?
Responda a enquete ao lado: você é a favor de um terceiro mandato para o Lula?
Resultado: Sim: 12 votos-50%; Não:10 votos-41%; Não Sei:2-8%

18.4.09

MV Bill, João Jorge e a Economia Criativa

O debate político atual no movimento negro tem uma vertente com foco nas próximas eleições de 2010 voltado para nomes ligados ao entretenimento um setor da indústria cultural: MV Bill (rapper e empreendedor social) como possível candidato ao Senado e que foi lançado pelo Caetano Viscoso e João Jorge (presidente do Olodum e empreendedor social) também lançado como candidato mas ao governo da Bahia pelo músico e compositor Carlinhos Brown.
 
Eles tem em comum as carreiras profissionais ligadas ao setor de produção cultural que está inserido na 'economia criativa' talvez mais do que suas idéias sobre política, mas isto é uma questão para depois, se suas candidaturas avançarem (ou fracassarem).
Mas elas estão colocadas e o público e eleitores mobilizam-se para o debate. Talvez  agora seja tão ou mais importante do que discutir a viabilização dos seus nomes, partidos, etc. seja observar uma questão de fundo de algo que eles tem em comum nas suas atividades profissionais que os projetam com interessantes possibilidades para um eixo de propostas nestas possíveis candidaturas.

O tema não é totalmente novo mas é oportuno com este perfil de candidatos negros que poderiam sem enrolarwm seu eleitorado desenvolver melhor nas suas próprias áreas de atividade mostrando um pouco mais ao "que vieram" se encararem o desafio de serem candidatos nas próximas eleições em 2010.
Trata-se da Economia Criativa que oferece um valioso eixo para o desenvolvimento de políticas públicas nas atividades que tem sido "reservadas" aos negros e que poderiam ser melhor interpretadas a partir deste foco. E para termos melhores referências para uma reflexão seguem  uns links básicos:

A economia criativa tem na pirataria um forte concorrente

Segue uma entrevista com João Jorge feita pelo polêmico e ex-todo-poderoso presidente do PT e ex-Ministro do primeiro governo Lula, José Dirceu:

Nesta matéria da Afropress, João Jorge, presidente do Olodum fala dos planos que envolvem sua possível candidatura ao governo da Bahia e a de MV Bill ao Senado pelo Rio de Janeiro: http://www.afropress.com/diversidadesLer.asp?id=186

6.4.09

O Burro-Velho, o mulato e o espelho


Depois de ler a crônica "Quem tem raça é cachorro" do João Ubaldo no jornal O Globo de domingo (05/11) algumas metáforas zoológicas também me vieram à mente como lembranças de alguma coisa bucólica como as que o escritor talentoso tornou meio de vida. 

João Ubaldo um "branco baiano" é mais um ideólogo da mulatice contra as cotas raciais e a identidade negra  

Não é birra de domingo, mas foi assim que tudo começou neste dia arrastado de meia-estação quando o Carlinhos me telefou para dizer que falaria comigo só depois que eu lesse o Ubaldo no Globo.
Tá, bom, vou ver, disse sonolento as 12:30. Mas como eu não leio mais jornal impresso, vou tentar na internet. Lembrei de um blog porreta que tem os artigos diários de um monte de colunistas dos jornalãos e lá estava a tal crônica: "Quem tem raça é cachorro". 
O Carlinhos tá querendo me zoar, ele não sabe que eu deixei de ler o Burro-Velho por falta de paciência com suas reminiscências Itapariquenses como cenário do seu mundo Ubaldiano? 
Mas a sensação de pasmaceira prossegue com a capacidade que o festejado Ubaldo tem de dizer umas coisas tão burras no meio da sua prosa temperada com aquele molhinho baiano que passeia do apimentado ao quindin e que é exposto num cenário tropical para seus leitores sonolentos de domingo.
Prosseguindo a leitura do "Quem tem raça é cachorro" acabei percebendo algum ar resignado como o de um velho tigre de bengala mas que ainda ruge para gatinhos.
E toma chavão daqui, dalí, umas metáforas, o tema é polêmico, palpitante, excitante, então toma uma insinuação, uma palavra ambígua para causar uma certa provocação. Mas sem o gingado de um mestre que quer mostrar a verdadeira essência do jogo ele se deixa levar pela aparências, pela ilusão do espelho baiano que vê no mestiço uma espécie de 'alma lavada' das impurezas do negro. 
Como num essencialismo invertido onde a imagem refletida parece ser o real o autor de Viva o Povo Brasileiro desde que o tema virou enredo de escola de samba passou a acreditar mesmo na imagem do espelho. Daquela aparência que serve prá explicar a nacionalidade em vez de servir para perguntar que nacionalidade é essa que quer excluir a identidade negra como se fosse uma antítese nacional e não uma síntese.

Os escritores todos nós sabemos são algumas vezes profetas, justos sonhadores e entre outras possibilidades também são canalhas.

Depois que o grupo dos 113 contra as cotas raciais lançou seu manifesto se iniciou a partir daí o combate anunciado, diga-se de passagem como uma espécie de 'Cruzada anti-cotas' que é apenas a superfície de um outro combate à identidade negra. 

Não é a questão de dizerem o que pensam ou reivindicar a identidade que desejam, isto é um problema deles.  O que destoa primeiro é a vantagem nos recursos materiais disponíveis e oferecidos pela grande mídia, mas o que se ressalta mesmo é a insuficiência do texto nos argumentos utilizados contra, não consigo entender o que querem, mas ao menos consegui entender o que não querem: as cotas raciais.

Saudosos dos bons tempos do povo cordial, querem imputar um viva! ao povo brasileiro como uma mordaça que deve conter qualquer expressão autônoma de construção de novos sujeitos e novas identidades.  Pretendem uma identidade nacional construída com os estereótipos da Casa Grande. Apresentam-se sem pudor como herdeiros do velho universalismo, refletem-no como uma espécie de bonachões da história nacional, o mainstream da nacionalidade, são os caras que deram certo e resolveram se intitular os guardiões dos princípios da identidade nacional inspirados pelo figurino colonial do 'negro bom para o eito e da mulata boa para o leito' ou outras preferências.

Conservadores de cepa à esquerda ou a direita, não importa muito a coloração (ops!) ideológica, sua identidade brasileira é tão autêntica quanto a dos que querem negar. 

Mas o "velhote ranzinza" como ele mesmo se intitula na crônica e eu diria com menos indulgência, o Burro-Velho, resolveu então explicar o que é "raça" supondo que é isso o que os cotistas e o movimento negro pensam de si: que são uma raça como os cachorros. Afinal, o que é que eles temem? Serem na sua mestiçagem confundidos com negros como ocorre quando vão para a Europa ou a América?

Foi se valendo da frase do Zecamunista um velho pelego de esquerda e evocando outros velhos espíritos que o inspiram ou atordoam que o Burro-Velho usou mais uma vez para se lançar ao combate: é o que ele declara dizendo que vai apelar para "grossuras".

Para certas experiências e conhecimentos o Burro-Velho é confessadamente ignorante como comprovou o Zé da Honorina quando perguntou a ele o que era "negritude" e "irmandade" entre os negros.

Sem saber o que responder, insinuando o que não consegue entender, vai falseando a realidade da qual é sofrego sorvedor como o outro baiano Caetano. E coçando a ponta do nariz que além de já estar vermelha deve ter crescido também, assim o Burro-Velho assume sua grossura. O pudor, a vergonha devem ser a mesma com a qual se oculta, subtrai e joga fora aquela foto que falta no álbum de família, a mãe-preta ou o pau preto que precisam esconder da descendência porque não tem a consciência sã dos desejos que o antecederam e que não podem assumir pela vergonha que se converte em racismo ou seria o contrário?

São os mesmos com seus "amigos africanos" que no Velho Mundo e na América são vistos com o estranhamento com que aqui eles enxergam os cotistas. Só que aqui estes estranhos - os negros do mundo - vem perdendo o medo, o desasossego da imagem depreciada e imposta mas que se assumiram como protagonistas da própria da história, enquanto eles insistem dizendo:-" não sejam negros, sejam mulatos!" 
Dizem algumas vezes com certa modéstia e uma espécie de tributo aos seus fantasmas, que são mestiços assumidos na cor e na cultura; mulatos são os outros que se querem negros. Porque será que querem assumir esta imagem dos violentados, expropriados, de senzala, ralé, será uma identidade da revolta, de insubmissão? Nós - eles dizem - os bons dessa história, da aceitação deste destino escrito pela cor da pele queremos ser apenas mestiços, a meta-raça que redime. E felizes já aqui somos brancos, já que esta mestiçagem nos redime da identidade negra, essa marca que vocês querem relançar. Atônitos partem para um argumento infantilizado - afinal, escrevem para uma classe média emburrecida e nisto tem razão - alegam: quem tem raça é cachorro! E esperam com isso sensibilizar os medíocres da opinião pública para barrar as cotas. Mas aqueles que exigem as cotas sabem bem da "raça" que proferem: é aquela mesma que ele o Burro-Velho não soube explicar ao Zé Honorina: negritude e solidariedade. Aquela que estes negros ancestralizados e modernos na sua imagem, que pressentem a África, a raça por eles inventada e depois de imputada querem agora apagar das memórias para os confundir depois que subtraíram seu trabalho e a dignidade. 
O que podem saber estes negros se não o caminho de volta ao encontro do outro lado do espelho. Da "outra cena" que como dizia Lacan para burlarem seu "saber paranóico" que impuseram da essência pela aparência?
Aliás, mulo que resulta no mulato é quem mais se assemelha biologicamente a uma raça como os cachorros.
Já os negros assumidos e não aqueles da cor que espantam os seus olhares, de fato não são uma raça como seus cachorros, estes negros são uma comunidade simbólica que se identificam e se orgulham de uma ancestralidade africana e que promovem uma ideologia de resistência e de libertação. De fato não são uma raça, não são os cães da história.

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