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8.4.14

Somos todos e todas Claudia



O assassinato de Claudia Ferreira da Silva, uma mulher negra na porta de sua casa por policiais militares do Rio de Janeiro mostra mais uma vez que a vida das pessoas negras representa a "carne mais barata do mercado" diante do poderio bélico de uma polícia criada e mantida para matar, especialmente pobres e negros.

Duas manifestações ocorridas no Rio de Janeiro, uma em Brasília e inúmeras homenagens postadas na internet, além de milhares de manifestações feitas nas redes sociais em protesto contra a violência policial combinada com o racismo que vitima proporcionalmente mais pessoas negras através de uma política pró genocida e intimidatória do Estado brasileiro sobre os pobres e favelados põe mais uma vez a nu nossa frágil democracia.

Ouça aqui o áudio de parte da manifestação ocorrida em Brasília:

Veja no link a homenagem a Claudia feita por mais de uma centena de artistas:

No Rio de Janeiro um grupo de manifestantes inspirados na dinâmica da Jornadas de Junho 2013 se expressa com música, dança e cartazes caminhando do Largo do Machado até o Palácio Guanabara:

Em Maceió, Alagoas será realizada uma manifestação no próximo dia 13 de abril:

Um grupo de manifestantes identificados ao movimento negro protestaram em Madureira, bairro de residência de Claudia e fizeram uma caminhada até sua residência em solidariedade a sua família.



18.3.14

O racismo cotidiano e a Copa da Fifa.

Não há dúvida que o racismo nas suas mais variadas formas se mantém inabalável e presente cotidianamente na vida social brasileira. 

Diariamente na televisão com as suas abordagens tendenciosas como nas telenovelas e nos programas humorísticos, além de, por outro lado, promover a invisibilidade do negro quando se trata de temas positivos. 

Há ainda, uma política de Estado - executivo, legislativo e judiciário - que ignora os clamores desesperados e as reivindicações urgentes pela população vitimada de medidas contra o pró genocídio da juventude negra e de quantos pobres favelados estiverem no caminho da polícia militar e de grupos informais de justiçamento.

Não há uma estratégia do movimento negro, nem dos movimentos sociais para lidar com isso, hoje, o Estado não se sensibiliza, a população se mantém alheia, imersa no seu cotidiano opressivo e nas horas de fuga diante da tv.

É preciso haver uma mobilização que vá além das campanhas simbólicas como fará o governo para dar mais uma vez satisfação a setores de opinião nacional e internacional com vistas a Copa da Fifa em junho desse ano.

A vida no entanto, continuará pós Copa, cruel e perigosa para uma maioria negra moradora em bairros precários onde, repetimos, a presença do Estado, é a polícia que extorque e mata como se fizesse a parte suja da parte boa da sociedade que se mantém muda e cúmplice.

Diante de um estado de coisas que só tem se agravado com a intensificação dos casos de racismo o governo federal resolveu dar um ar solene a uma campanha anti racista que serve ainda, para agradar aos setores sociais que se prestam a esse papel menor de se deixar usar para legitimar ações de fachada.

O resultado do encontro de alguns negros com a Presidenta Dilma é melancólico:
"Como resultado, o compromisso de uma campanha de combate e repúdio ao racismo que deve ser promovido em função da Copa do Mundo e uma ou outra iniciativa de instituição ou ampliação de cotas raciais em editais de ministérios ou coisa que o valha. Iniciativas importantes, mas pouco para a necessidade e a realidade de barbárie cotidiana a que está exposta a população negra no Brasil."
Diante desses acontecimentos é possível dizer que já não há mais movimento negro, além do movimento de luta pela sobrevivência pessoal, das aspirações de mobilidade e da militância quixotesca de muitos poucos diante da açambarcadora violência cotidiana do racismo.

Violência que no plano real já não se pode mais apontar como residual, nem no plano simbólico por sua vez, considerá-la sutil.
Neste link a nota de Douglas Belquior que participou do encontro com a Presidenta Dilma.


28.8.13

Texto racista em prova na UFF mobiliza estudantes



Faço pausa na minha escrita principal, a dissertação de mestrado e na escrita acessória irreprimível no Facebook. Aqui no blog acabo escrevendo com maior pausa e reflexão pelo estilo de escrita que me impus, o que limita meu ímpeto de escrever sobre tanta coisa que não cabe no Atabaqueblog. O que nem é o caso dessa postagem pelos motivos apontados, mas que comento como registro de não ter podido escrever com maior reflexão como gostaria.

Recebi por email uma nota sobre uma prova no IACS (Instituto de Artes e Comunicação Social da UFF), na disciplina Ação Cultural em Unidades de Informação ministrado pela Professora Renata Gouvea Barbalho.

 Uma reunião está marcada para a próxima quinta-feira, 5/9/2013, às 19h, na Rua Aurelino Leal, 31, no centro de Niterói. Fica perto das Barcas.

O grupo de repúdio que se mobiliza contra essa prova apresentada aos alunos sem qualquer nota crítica que introduzisse ou justificasse o tema o que sugere que se trata de uma má pedagogia e expõe a desavisada (?) professora a uma reprimenda pública e a sanções administrativas que serão exigidas da Universidade.

Segue o texto apresentado pela Professora Renata Gouvea

O texto da prova foi retirado de um blog racista, xenófobo, homofóbioco e machista de nome

<http://aurorabrasilis.blogspot.com.br>.

Veja abaixo o texto da prova apresentada aos alunos:

Prova da UFF que a aluna se recusou a fazer:

Estudo provando que o negro é inferior [...] Os primeiros exploradores da África Oriental foram os árabes muçulmanos, eles escreveram como ficaram chocados com a nudez, o paganismo, o canibalismo e a pobreza dos nativos. Um deles afirmou que os negros possuíam a natureza de animais selvagens. Outro se espantou ao descobrir que as crianças não sabiam quem era o pai. Centenas de anos mais tarde, os exploradores europeus tiveram as mesmas impressões. Eles relataram que os africanos pareciam ter pouca inteligência e poucos vocábulos para expressar pensamentos complexos, também reclamaram da falta de hábitos de higiene. Todos os relatos seriam fruto do etnocentrismo?
Certamente que não, pois a história está repleta de narrativas sobre visitantes de culturas bem diferentes que mesmo assim elogiaram as qualidades dos outros povos. Os brancos que participaram das viagens de exploração à China eram tão racistas quanto aqueles que exploraram a África, mas suas descrições eram diferentes das que, tanto eles quanto os árabes, escreveram sobre os africanos. Marco Polo descobriu que os chineses tinham construído boas estradas, pontes, cidades ligadas por canais, um sistema de recenseamento, mercados, padrões de pesos e medidas, e não apenas moedas, mas também dinheiro de papel. Mesmo estando consciente da grandeza da Antiga Roma, o italiano Marco Polo escreveu: "Não existe raça mais inteligente na Terra do que os chineses". Para explicar tanta disparidade, os sociólogos defendem que não é possível comparar culturas, porque todas são igualmente evoluídas, cada uma da sua maneira.
Ignoram que fatores objetivos, entre eles: expectativa de vida, saneamento básico e tratamento médico são usados até hoje na comparação de cidades, estados e países. Pena que poucos defensores dessa posição estejam dispostos a abandonar definitivamente a civilização para morarem em tribos. As diferenças também se manifestam quando as duas raças convivem em sociedade. Nos EUA, os pretos representam menos de 13% do total da população, no entanto, são responsáveis por 50% das detenções por homicídio e roubo, 67% dos detidos por furto são pretos. 50% das vítimas de todos os crimes combinados reportam que o agressor era negro, o que afasta a possibilidade das estatísticas policiais serem tendenciosas. Além disso, os pretos são responsáveis por grande parte dos crimes ditos de "colarinho branco". Assim, são negras 33% das pessoas presas por: fraude, falsificação, contrafacção e recepção de objetos roubados, bem como representam 25% dos presos por desvio e apropriação indébita.
Os crioulos só estão sub-representados nos delitos fiscais e financeiros, os quais são praticados por pessoas de elevada posição social. Os resultados não só se repetiram em estudos feitos na Europa, mas também no Anuário da Interpol, mostrando que esse padrão racial é consistente numa escala global. Outro traço comum nos pretos é a promiscuidade, conseqüentemente, a maioria dos portadores de doenças sexualmente transmissíveis são da raça negra. A Organização Mundial de Saúde acompanha a ocorrência das doenças sexuais, tais como: sífilis, gonorréia, herpes e clamídia. Ela reporta baixos níveis dessas doenças na China e no Japão e altos níveis na África. Estudos feitos nos Estados Unidos, em 1997, constataram que a sífilis nos negros era 24 vezes maior que nos brancos. Enquanto nos brancos a taxa de sífilis era de 0,5 casos por 100.000 pessoas, nos negros era de 22 casos por 100.000.
Um recente relatório concluiu que 22% das jovens moradoras de bairros problemáticos das cidades americanas (na maioria negras) sofriam de clamídia. Basta visitar um baile funk para comprovar o que estamos dizendo. As maiores diferenças estão no quesito inteligência, apesar do teste de QI não ser perfeito, ele tem se mostrado capaz de prever o sucesso acadêmico e profissional. Baixo QI prediz: abuso infantil, crime, delinquência, má saúde, propensão para acidentes, geração de crianças fora do casamento, divórcio antes de decorridos cinco anos e, até mesmo, o ato de fumar durante a gravidez. A média de QI nos orientais é de 106, nos brancos por volta de 100 e nos negros cerca de 85.
Usando o teste das Matrizes Progressivas de Raven, que mede o raciocínio sem considerar informação cultural específica, Kenneth Owen obteve o QI de 70 para africanos negros de 13 anos que frequentavam o sistema escolar sul africano, a mais baixa até hoje registrada, vale ressaltar que QI de 70 é considerado deficiência. O QI dos mestiços aumenta de acordo com a quantidade de ancestrais brancos, os mestiços da África do Sul têm um QI de 85, o mesmo que os negros nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Caraíbas. Diversos testes foram realizados e obtiveram resultados semelhantes, inclusive aqueles conduzidos por psicólogos negros, o que fez o Nobel de Fisiologia/Medicina James Watson declarar, em artigo publicado no Sunday Times Magazine de outubro de 2007, que estava "inerentemente pessimista quanto às perspectivas da África" porque "todas as nossas políticas sociais estão baseadas no fato de que a inteligência deles é a mesma que a nossa, enquanto que todos os testes dizem que não é assim",
o que custou seu emprego. Você, mulher branca, ao ler isso, ainda quer engravidar de um macaco? Ao contrário do que a maioria pensa, a raça vai muito além da cor da pele.[...] Autor: Oswaldo Melchior (filósofo e teólogo) (pouco me importa se é 'fake' ou não) Disponível em: http://aurorabrasilis.blogspot.com.br/2012/04/estudo-provando-que-o-negro-e-inferior.htmlAcesso em: 14 de jan. de 2013.

Prova
Regras para elaboração da prova:
- A prova poderá ser feita individualmente ou em dupla;
- Não poderá haver citações diretas com mais de três (3) linhas; - Leia o texto (em anexo) antes de responder as questões. Após a leitura do artigo de Oswaldo Melchior, “Estudo provando que o negro é inferior”, responda as questões:
1- Quais conceitos e concepções de cultura podem ser relacionados à reportagem extraída do site?
2 – Explique o significa dos conceitos de “determinismo biológico” e “determinismo geográfico”:
3 – Porque o conceito de endoculturação diverge da visão apresentada pelo autor do artigo?
4 – Para o autor do artigo a cultura é inata ou empírica? Justifique:
5- Qual a importância de Edward Tylor, no debate sobre cultura?
6 – Relacione a atual conceito de cultura, na antropologia, com uma ação cultural:
7 – Como as ações culturais, em uma unidade de informação, podem influenciar na vida dos cidadãos?


20.11.12

Dia consciência negra, uma conquista de todo dia

Uma pequena frase revela fatos óbvios. Nesse caso, na frase título da reportagem, ela mostra um alcance profundo na manutenção das desigualdades sociais/raciais no Brasil. As vezes parece que falamos de um outro país, de pessoas que não conhecemos, de fatos que desconhecemos ou de uma realidade que ignoramos. Mas não é isso, a desigualdade vivida pela população negra no Brasil é flagrante e perversa, e sua evidência é mascarada pela naturalização da pobreza, pela deslegitimação das reivindicações específicas para a sua redução e eliminação. Os argumentos variam entre o ingênuo, o cínico e a canalhice. Mas o povo negro que vem sofrendo essas consequências tem pouco a pouco adquirido consciência da farsa que se reveste para sua permanência através dessa enganação, do medo e da repressão de parte do Estado e da cumplicidade de todos aqueles que negam sua existência. Zumbi dos Palmares é um símbolo dessa tomada de consciência construída pelo movimento negro, aquele grupo de arrojados que sai à frente da massa abrindo o caminho para as conquistas devidas a essa imensa maioria destituída de direitos, de condições dignas de vida, oportunidades iguais no acesso a educação, trabalho e saúde e respeito à sua imagem, cultura e religião.

Brasil passou mais de um século sem políticas públicas para o negro, diz professor
19/11/2012 
Da Agência Brasil
Brasília – Em palestra realizada hoje (19) na Advocacia-Geral da União (AGU) o professor e pesquisador Edson Lopes Cardoso destacou a importância de ações que valorizem a inserção de raça e de gênero na sociedade brasileira. A palestra fez parte das comemorações do Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares.
Segundo o professor, que também é assessor especial da Secretaria de Promoção de Políticas de Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir-PR), entre a Lei Áurea, sancionada em 1888, a Lei 3.708, de 2001, que instituiu o primeiro sistema de cotas nas universidades para estudantes afrodescendentes, não houve nenhuma iniciativa que beneficiasse o negro. “Apagamos a escravidão da história” disse.
Ele defendeu ainda a Lei de Cotas, sancionada em agosto, e alertou que é preciso mobilizar governo e sociedade para que, ao final de dez anos, quando a lei precisará ser revista, os resultados possam ter contribuído para melhorar o modelo de sociedade no Brasil.
“As pessoas vão se surpreender daqui a alguns anos quando forem atendidas por um médico índio, um engenheiro negro. E isso vai acontecer. A sociedade e o governo têm que garantir que esse seja o caminho”.
Cardoso lembrou que, apesar de termos no país uma rica diversidade racial é preciso saber lidar com essa variedade, que resultou de um processo histórico e que só traz vantagens para o Brasil. “O que fazemos com essa vantagem? Uma sociedade diversificada tem um desafio, que é assegurar o pluralismo. É compromisso da democracia, combater o racismo e o sexismo”, disse.
Como parte das comemorações do 20 de novembro, a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Distrito Federal (Sepir-DF) junto com a Fundação Cultural Palmares promovem durante a semana, uma série de atividades que serão concentradas na Praça do Museu da República.
Estão programadas palestras e seminários sobre a inserção do negro na sociedade, além de desfiles e exposições sobre a cultura negra. Para as noites estão programados shows das cantoras Vanessa da Mata, Dhi Ribeiro, Sandra de Sá e da banda Cidade Negra. A programação completa está no site da Fundação Palmares.
Edição: Tereza Barbosa

13.9.12

As faces da intolerância religiosa

A provocação e a intolerância religiosa articulam no mundo atual interesses religiosos e políticos protagonizados por fanáticos de cepa totalitária e grupos que querem manter seus amplos poderes à custa da industria da guerra e do medo sobre as massas. No conflituoso cenário Ocidente cristão versus Oriente muçulmano, um filmeco provocativo aos muçulmanos se tornou estopim de conflitos que colocam os EUA em posição cada vez mais delicada e contraditória por sua pseudo democracia. Ao permitir veicular provocações como a desse filme apoiado por diversas associações que pregam e praticam a intolerância religiosos e racial acendem um estopim que favorece a direita norte-americana às vésperas das eleições.



Nas Brasil a intolerância religiosa tem nuances diferentes, ela é exercida contra os pacíficos seguidores das religiões de matriz africana por evangélicos fanáticos que vão pouco a pouco consolidando espaços políticos  governamentais ao mesmo tempo em que em ações capilares promovem por todo o país a intolerância religiosa contra o cristianismo popular e as religiões afro. Aqui, no entanto, ao contrário dos países muçulmanos ou das comunidades muçulmanas a enorme parcela de adeptos dessas religiões se mantém pacíficas e até mesmo acovardadas ante a arrogâncias de pastores fanáticos, gananciosos e seu seguidores.

A provocação feita pelo filme "Innocense of Muslin" me lembrou logo o "Chute na Santa" do pastor Von Helder e toda uma rede de picaretas e farsantes que pregam a intolerância religiosa à custa do massacre da identidade cultural do povo negro brasileiro e de seus símbolos.


No vídeo abaixo uma das ações de evangélicos fanáticos incitando o povo humilde para agredir ou impedir um culto de candomblém em Olinda.


12.8.12

Avenida Brasil, o acaso e o escravo


É um acaso e uma curiosidade. Eu procurava uma imagem significativa na telenovela Avenida Brasil para a cena (invertida de importância pelo meu interesse) do escravo islamizado para representar a relação da  senhorial da vilã Carminha com seus empregados. Na primeira parada do vídeo congelei casualmente a imagem em que o casal reproduz o mesmo movimento da estátua e com significados totalmente diversos: Tufão segue confuso, Carminha dissimula seu autoritarismo e o escravo vestido com o dourado e um torço representado numa estátua de louça decorativa, um símbolo da servidão e do arcaico. Como isto é um trecho de uma análise sobre o negro nesta telenovela, parece meio no ar, mas vale pelo registro.

O acaso da cena: no fundo à direita a estátua de louça decorativa de um escravo negro, um símbolo da servidão como decoração na mansão suburbana, uma Casa Grande incorporada na 'grande favela' Avenida Brasil


Decoração estilo Avenida Brasil: "Aprenda com Carminha como esbanjar luxo e poder na hora de decorar a casa".

Na página da telenovela as dicas de decoração da Carminha são apresentadas ao público como sugestão de decoração. É sério! Será isto, uma proposta do kistch como um estilo de consumo para a classe C como uma nova classe média que a telenovela quer representar?


12.2.12

Novas formas do protesto negro e antirracista

O protesto do negro é essencialmente antirracista e paradoxal já que faz a critica ao racismo e afirma ao mesmo tempo a identidade negra. Talvez por isso não seja compreendido (ou apenas por má fé!) pelos falsos antiracistas que condenam a afirmação da identidade negra como racismo, e não ao contrário, deixam de perceber seu questionamento e uma proposta de sua libertação (conscientização e novas atitudes). Estranho é, e ninguém duvida, afirmar-se a identidade branca por suas consequencias de abominável lembrança.

No protesto negro antirracista, negros e brancos protestam juntos!

Protesto antiracista no Shopping Higienòpolis (SP) em fevereiro de 2012 

A última década, é a do início do século XXI e nestes anos as formas de protesto negro vem se diversificando e assumido uma expressão mais próxima dos direitos civis do que de luta de classes. Isto contudo, não desqualifica estas novas formas de luta de uma perspectiva anticapitalista (a origem do mal!). Porém, apontam para as questões mais imediatas do dia a dia, das relações de consumo, das relações interraciais e da política de cotas que significam educação, trabalho e consumo, já!

Protesto em 2011 da Educafro por cotas para modelos negros nas passarelas das Semanas de Moda

Os novos protesto tem assim, cada vez mais, alvos específicos como os espaços públicos-privados: restaurantes, shopping centers, supermercados, agências bancárias e desfiles de moda. Recentemente tivemos diversos protestos dos estudantes do Educafro contra a falta de modelos negras nas passarelas de moda, o caso de uma criança negra estrangeira retirada do restaurante do Restaurante Nonno Paolo e agora no Shopping Higienópolis ambos em São Paulo entre outros. Anteriores a esses já houveram protestos semelhantes em Shoppings, Supermercados e Bancos também em  Salvador e no Rio de Janeiro. Estas  novas formas de protesto atendem aos novos códigos de comunicação cada vez mais espetaculares, mercadológicos e midiáticos. A esses novos protestos podem ser ainda agrupados os feitos contra políticas de governo, à falta delas ou para o seu cumprimento.  Este reconhecimento deve ser estratégico e positivo já que é o que repercute dos setores sociais negros mais bem in-formados e de perfil de classe média urbana. Estes jovens que já não pretendem esperar que o ensino público de qualidade seja universal, que o trabalho deixe de considerar os requisitos de exclusão ou que por fim a sociedade fique liberta do capitalismo.
A hora é já!


1.1.12

Quais são os símbolos do racismo no Brasil?

Os judeus ortodoxos em Israel fizeram um protesto utilizando o símbolo máximo da humilhação na Segunda Guerra Mundia, a estrela amarela, que indicava os que seriam enviados para os campos de extermínio em protesto contra a mídia.

No Brasil, quais seriam os símbolos máximos da degradação racista a que são submetidos os negros?
A utilização da estrela amarela - que os judeus foram obrigados a carregar durante o regime nazista - na noite de sábado (31) durante um protesto de judeus ultraortodoxos provocou indignação em Israel.
"Condeno da forma mais enérgica este fenômeno de utilização dos símbolos do Holocausto. É inaceitável. Isto prejudica a recordação do Holocausto e os valores fundamentais do judaísmo", declarou Avner Shalev, diretor do Memorial Yad Vashem, dedicado ao estudo e memória do genocídio cometido pelos nazistas.
Centenas de judeus ultraortodoxos, alguns com a estrela amarela, protestaram no sábado à noite no bairro Mea Shearim, em Jerusalém, contra os meios de comunicação que, segundo eles, são hostis a suas ideias, em um clima de tensão entre laicos e religiosos.
Neste domingo, todos os jornais israelenses publicam fotos dos manifestantes, incluindo crianças, com a estrela amarela sobre o uniforme listrado dos deportados para os campos de extermínio nazistas.

Menino judeu ultraortodoxo usa estrela amarela em Mea Shearim, em Jerusalém, neste sábado (31) 
"Nós devemos reagir a esta grosseira provocação rompendo as muralhas do gueto que isola os Haridim (literalmente os que 'Temem a Deus') por meio da educação e formação", escreveu Nahum Barnea, principal articulista do "Yediot Aharonot", o principal jornal do país.
"Mas também devemos fixar os limites, reduzindo os subsídios públicos aos institutos talmúdicos e as subvenções familiares", completou, em referência às famílias ortodoxas que não trabalham para dedicar-se ao estudo da Torá.
Shalom Yerushalmi, do jornal "Maariv", também indignado com a manifestação de sábado, afirmou que "nunca antes a luta entre laicos e religiosos havia sido tão degradada".
Fonte: AFP/G1

20.11.11

África, não!


Namíbia, fica no sul da África e foi um território colonizado por alemães e uma das opções para a deportação dos brasileiros de "melanina acentuada" num futuro próximo. Esta foi a iniciativa encontrada pelo governo brasileiro nesta obra de ficção depois que um advogado exigiu a indenização de R$ 900 bilhões de reais pelos quase 400 anos de trabalhos forçados.

Para os agentes do governo identificar quem possui "melanina acentuada" não foi problema. Esta questão aparece na peça "Namíbia, não!" como na vida real como um problema apenas para quem não construiu uma identidade afirmativa, apesar das marcas da origem africana. Contudo, estas marcas nunca serão suficientes para aquelas pessoas que, como ouvi na saída de uma mulher jovem que dizia não era ela  "apenas afrodescendente", mas também tinha outras misturas. No tempo da peça seu dilema já estaria resolvido.

Muitos talvez não queiram ir para a Namíbia, já que lá, se fala o alemão. Quem sabe Angola ou Moçambique entre os países africanos de língua portuguesa? Ou simplesmente a  África? Não, já nascemos aqui e mais do que isso, trabalhamos aqui, temos nossos parentes, amizade, construímos juntos parte da riqueza da qual poucos se beneficiam. É este um dos argumentos do autor para debater a questão das reparações.

No texto da peça, nem se fala das delícias do samba entre outras coisas que se devem a nossa criatividade e são parte da nossa resistência que se tornaram símbolos da nação  (e de diversão!) e que  são outros argumentos possíveis para rejeitar a reparação autoritária do governo. O que fica mais em evidência além das reparações na crítica das políticas afirmativas sugeridas na peça são  as cotas raciais apresentadas de forma ridicularizante. Ainda que no clima descontraído do espetáculo que quer fazer rir e pensar, também seja feito um questionamento à proibição dos negros em frequentarem no início da República as escolas destinadas aos filhos de imigrantes, além das cotas de terras para europeus que vieram embranquecerem a nação.

Mas e a África, ir ou voltar? Abrir mão de tudo o que se construiu aqui? Será um dilema para o futuro? 

"Eu não conheço ninguém lá!", "Eu sou parda!" "Eu não sou africano!" algumas vozes, alguns pensamentos sempre podem interferir na hora dessa decisão segue sugerindo o debate proposto pela peça..
Poderíamos também perguntar contrapondo o permanecer aqui: e tudo o que construímos depois da escravidão, as perseguições ainda sofridas, o mau atendimento médico, a invisibilidade, a chacota racista, as perseguições, etc,etc. continuamos culpados, criminalizados pelo "defeito de cor"? Qual a compensação à tudo isso? Deixaremos que isso se eternize como querem os racistas cordiais?

A peça, o texto, é um convite à reflexão, assim ela é finalizada pelos atores em agradecimento ao público. Nem tanto drama, nem tanto comédia, mas a peça transcorre leve e reflexiva com dois excelentes atores negros Aldri Anunciação também autor do texto e Flávio Bauraqui dirigidos por Lázaro Ramos.

Em alerta, Lázaro observa no folheto da peça para o perigo da 'história única' feito pela escritora nigeriana Adichie. Certamente, ele quer dizer da chamada história oficial que se insin(u)a ainda nas escolas e na mídia, apesar da lei do ensino afroindígena em respeito à diversidade dos povos que constroem o Brasil.

Por fim, o apelo é para que não nos deixemos enganar pelo diversionismo do retorno à África - matriz de nossa identidade negra brasileira. E sobretudo, que não devemos deixar de reclamar por todos os direitos subtraídos e negados pelos quase quatro séculos de trabalho forçado que ajudaram a construir este nosso país. Aqui é a nossa África ("a África mora em nós!") para horror dos que sonham em transformar este país numa Europa tropicalizada. Ou para alguns que do outro lado da fronteira social de forma escapista teimam em sonhar o sonho do retorno!


19.4.11

Google homenageia Monteiro Lobato no Dia Nacional do Livro Infantil

O Google homenageou Monteiro Lobato no Dia Nacional do Livro Infantil que é comemorado neste 18 de abril em meio a controvérsia sobre a exigência de uma nota de advertência contextual sobre expressões racistas utilizadas em sua obra.


Se fosse realizada no Brasil uma pesquisa sobre a substituição das expressões racistas na obra infantil de Monteiro Lobato Caçadas de Pedrinho por outras expressões que não violassem a dignidade dos negros, qual seria o resultado previsível?

Nos EUA há pouco mais de um mês foi realizada uma pesquisa para saber o que a população pensa a respeito da substituição da palavra racista nigger, um termo depreciativo para a dignidade do negro norte americano, por slave (escravo) no fasmoso clássico da literatura: As aventuras de Huckleberry Finn de Mark Twain.
A pesquisa que foi mais abrangente, incluia questões sobre a presença em bibliotecas escolares de livros religiosos como a Bilblia, o Alcorão e o Torá e ainda sobre o Evolucionismo, teoria que contraria as crenças religiosas sobre a origem humana.
A aceitação por exemplo dos livros religiosos é, poderíamos dizer, relativamente proporcional ao número de adeptos ou simpatizantes dessas religiões.
Junto ao tema religioso, outros temas foram pesquisados e tiveram percentuais aproximados de proibição  como vampiros ou bruxaria, drogas ou álcool, sexo, violência e palavrões.

Como supus no início, se uma pesquisa semelhante fosse feita no Brasil, pouparia talvez Monteiro Lobato, ao contrário dos EUA com Twain,  do veto às suas expressões racistas na sua obra infantil. Especulo com ironia este resultado sobre uma hipotética pesquisa pelo que parece óbvio para os que defendem o veto: o racismo no Brasil é muito eficiente, é aquilo que previu Lobato como dizia sobre sua literatura, a melhor via para “um processo indireto de fazer a eugenia”, isto é, eliminar os negros.(1)

Por isso, creio que Lobato seria poupado pelas gerações hoje adultas (além das que ainda continuam sendo formadas por sua obra racista) educadas lendo em seus livros as expressões racistas contra o negro como se fossem naturais e que certamente não adquiriram uma visão crítica suficiente para interpretar as idéias nada sutis do racismo explícito nelas. Além disso, o que a escola reproduz, também ocorre no âmbito da família, na vida pública (no trabalho, na rua, etc.) e na mídia onde também se propagam os mesmos estereótipos racistas que produzem a "invisibilidade social do negro".

Em 2002 foi instituído por decreto do Presidente Fernando Henrique Cardoso para o dia do nascimento de Monteiro Lobato (18 de abril) como o Dia Nacional do Livro Infantil para homenageá-lo. Naquela ocasião a polêmica que cercou a obra infantil de Lobato ainda não tinha adquirido consistência que possui hoje.


Mark Twain nos EUA o termo pejorativo nigger será substituído por slave

Nos EUA contudo, uma nova edição da NewSouth Books modificou mais de 200 palavras da obra, publicada pela primeira vez em 1884. A NewsSouth Books justificou as mudanças como uma "alternativa para professores que queiram usar o livro em sala de sala, mas não podem apresentar a versão original por conta das pressões de pais e administradores pela exclusão de livros." 

Uma medida semelhante é o que se debate no Brasil´, sendo esta mudança o que visa o parecer do Conselho Nacional de Educação, um orgão de apoio ao Ministério da Educação que advertiu para as alterações necessárias nos livros de Lobato.

Apesar de ter sido esta matéira da pesquisa nos EUA noticiada no Globo, o jornal tem preponderantemente dado mais apoio ao conservadorismo racista do que às mudanças necessárias à eliminação das fontes do racismo. Posição que se torna mais suspeita e anti-ética para esta empresa de comunicação na medida em que a editora de Monteiro Lobato faz parte do grupo empresarial do jornal.

Ainda no dia 18 de abril, a gigante da internet Google também resolveu homenagear o "Pai da Literatura infantil brasileira" Monteiro Lobato apresentando um Doodle em sua homenagem. 

Numa postagem na rede AFROKUT - Negros e Negras Cristãos  Hernani Francisco da Silva apresentou as mensagens trocadas com um porta-voz da Google sobre tal homenagem, observando a polêmica sobre o racismo de Lobato e que em 20 de novembro o herói nacional brasileiro negro Zumbi não havia sido homenageado.

A iniciativa do bloguista Hernani vem ao encontro de tantas outras iniciativas que buscam combater o racismo,    bem como é exemplar por exigir um tratamento adequado e justo para a cultura brasileira por uma empresa de mídia internacional. Tendo ele observado que em 20 de novembro de 2008 o Google preferiu homenagear Renné Magritte, um pintor francês em vez do herói brasileiro  Zumbi dos Palmares.

17.4.11

Charge racista? Macaco Obama?

Autor de charge racista tenta se defender dizendo que não é o que parece.


"À primeira vista, a charge causa espanto, porém, como eu já conhecia o cartunista Solda e admirava seu trabalho, fique com a pulga atrás da orelha e resolvi correr atrás de respostas. Fui até seu perfil no Facebook e perguntei se ele não gostaria de dar sua opinião sobre a polêmica. Reproduzo abaixo sua resposta que ele postou em meu Facebook e autorizou que fosse publicada em meu blog.
"Leonardo: jamais fui preconceituoso nem racista e não gosto desse tipo de gente. Coloco aqui o comentário do chargista Marco Jacobsen: O preconceito e o racismo ficaram por conta do ignorante que postou essa imbecilidade! E esses comentários carregados de preconceitos com quem mora no sul? Uma estupidez só! [aqui ele comenta sobre o que meus amigos disseram no Facebook] Essa turma não sabe ler?
A charge não é racista, gente. Fica claro que o macaquinho (figura simpática) que está fazendo o gesto “banana”, é uma referência à resistência às propostas comerciais indecentes que os americanos nos fazem há décadas. Oferecer uma “banana” aos americanos, não tem nada de racismo e sim um protesto bem brasileiro (seja ele de qual região for). O senhor Paulo Henrique Amorim, é responsável por achincalhar a o caráter ilibado deste que é um dos maiores artistas gráficos do país. Embora este senhor não tenha se manifestado de forma clara, publicar um post com o título: “Jornal Paraná Online publicou hoje charge racista com desenho de um macaco e com os dizeres...” é induzir a todos os leitores a tirar uma conclusão precipitada e burra. Manifesto aqui minha indignação e desprezo por todos que viram uma ilação racista na charge. Pois pra mim ficou claríssimo que o racismo está embutido na cabeça dessas pessoas mesmo que induzidas. Acho que o cartunista deveria processar o jornalista, o site e todos os que o acusam injustamente de racismo."
(Os grifos são meus)

Fontes: http://leonardoaraujo00.blogspot.com/2011/03/resposta-de-solda.html

11.3.11

Movimento Negro protesta contra provocação racista

O protesto de um grupo do movimento negro do Rio de Janeiro foi realizado contra a camiseta de Ziraldo feita para o bloco carnavalesco "Que merda é essa?!" de Ipanema antes do seu ensaio.

Camiseta desenhada por Ziraldo para o bloco "Que merda é essa?!"

RIO - O ensaio do bloco "Que merda é essa?!", no bar Paz e Amor, em Ipanema, foi marcado por um protesto de integrantes do movimento negro contra com o enredo que reverencia o escritor Monteiro Lobato, considerado por eles racista.
- Ficamos indignados pelo enredo defender Monteiro Lobato. Viemos aqui para esclarecer a população que ele pregou a exterminação do negro - disse José Ricardo Almeida, que panfletava na porta do bar Paz e Amor, na Garcia D´Ávila, onde os integrantes do "Que Merda é Essa?!" ensaiavam.
O protesto reuniu cerca de 20 pessoas, que distribuíam um folheto e cópia do parecer do Conselho Nacional de Educação emitido em 2010 que classifica o livro Caçadas de Pedrinho como racista. Para o diretor do bloco, Paulo Costa, trata-se de uma questão de ponto de vista:
- Defendemos que as pessoas venham mostrar seu ponto de vista. Somos contra o racismo e a homofobia. Foi um grande mal entendido.
A assistente social Roseli Rocha que participou do protesto, negou qualquer vínculo político-partidário ou com movimentos sociais do grupo.
Segundo Roseli, o movimento surgiu espontaneamente articulado pelas redes sociais. Ela disse que as pessoas que foram ao ensaio neste sábado não pretendem repetir o protesto no desfile do bloco no próximo domingo. Mas que ninguém pode garantir que outras pessoas compareçam ao desfile para protestar.
- A mobilização é por redes sociais. Outras pessoas podem decidir se manifestar Monteiro Lobato era mesmo racista e quisemos deixar claro isso - disse Roseli.
O secretário municpal de Turismo, Antonio Pedro Figueira de Mello considerou a manifestação uma besteiera:
- O carnaval é um período marcado pela alegria e a irreverfência. Não dá para em pleno 2011 as pessoas buscarem conflito onde o espírito é apenas o da diversão - disse o secretário de Turismo.
Antonio Pedro disse não acreditar que seja necessário montar um esquema especial para o "Que Merda é essa?!" desfilar. Segundo ele, a polícia já se planejou para dar segurança a todos os blocos.
Obs.: os grifos são meus

Fonte. ogloblo.globo.com 

Movimento Negro protesta contra racismo no carnaval

Protesto do movimento negro no "Que merda é essa?!" fere espírito da folia, dizem pesquisadores
28/02/2011
Martha Neiva Moreira

RIO - O protesto de um pequeno grupo ligado ao movimento negro contra o irreverente enredo do bloco Que Merda É Essa?!, que ironiza os exageros do “politicamente correto” e satiriza, entre outros temas, a tentativa de censura a um livro de Monteiro Lobato em 2010, foi considerado por intelectuais, pesquisadores e profissionais ligados ao carnaval como uma atitude boba, insensata e mal humorada, que foge ao espírito libertário da folia. No sábado, quando o bloco ensaiava em Ipanema para o desfile do próximo domingo, pouco mais de 20 pessoas, com camisetas e cartazes dizendo que “o racismo vai desfilar no carnaval”, panfletaram para os foliões cópias do parecer de 2010 do Conselho Nacional de Educação (CNE), já vetado pelo ministério, que classifica o livro “As caçadas de Pedrinho” como racista.


Para as personalidades ouvidas, quem faz o protesto é desinformado sobre a figura do autor e sobre o espírito que rege a festa de Momo.

— Carnaval é festa do inusitado, momento da liberação. Não cabe ter conotação política nem ser censurado desta forma — disse Hiram Araújo, pesquisador e autor do livro “Carnaval: seis milênios de história”.

Para justificar sua posição, o pesquisador se vale do simbolismo que a festa tem desde a sua origem, nas Dionísias gregas e Saturnálias de Roma:

— Na época das festas que deram origem ao carnaval, os escravos tomavam o lugar, simbolicamente, de seus senhores e saíam pelas ruas atirando detritos nas pessoas. Era permitido a eles ter um privilégio que não tinham no resto do ano. A ideia de que tudo pode durante o carnaval vem daí.

Para o escritor Ruy Castro, qualquer censura em desfile de carnaval é ignorância. Ele diz que o tipo de protesto feito contra o enredo do Que Merda É Essa?! é uma espécie de fundamentalismo de esquerda:

— É lamentável que a pressa, a superficialidade e a ignorância contamine o carnaval. As pessoas que acusam Monteiro Lobato de racismo e de querer “extinguir a raça negra” certamente nunca leram uma linha do que ele escreveu. Trata-se de uma atitude “politicamente correta de galinheiro”, como diria Nelson Rodrigues.

O desenho feito por Ziraldo na camiseta do bloco é uma sátira ao parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE), que, em outubro, tentou impedir a distribuição nas escolas do livro “As caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato. O CNE considerou racista o conteúdo do livro em alguns capítulos, pela forma como o autor retrata personagens. O parecer do conselho foi rejeitado pelo próprio ministro da Educação, Fernando Haddad, em novembro. Ele argumentou que Lobato é um clássico da literatura infantil.

Monteiro Lobato e o avestruz

Renomeei o artigo a seguir de Muniz Sodré publicado no Observatório da Imprensa. O artigo é uma boa provocação pós-carnavalesca tão contundente quanto o artigo pré-carnavalesco de Ana Maria Gonçalves, publicado aqui.


O princípio do avestruz
Por Muniz Sodré em 8/3/2011
É velha conhecida dos linguistas a regra da quarta proporcional. Assim: se a criança sabe que o futuro do verbo comer é "comerei", ao conjugar o futuro de trazer, ela pode dizer "trazerei". Esta é a quarta proporcional, um fato lógico, enquanto "trarei" é um fato de língua, que se adquire com a experiência progressiva do idioma.
A regra pode ser aplicada a situações sociais mais complexas: Se alguém ofende judeus e é socialmente classificado como racista ou antissemita, parece lógico que ofensas dirigidas aos negros tipifiquem o racismo. Aliás, o antissemitismo, como bem mostra o antropólogo Louis Dumont em Homo Aequalis, é a forma princeps do racismo no Ocidente.
Trata-se de um tipo simples de raciocínio que pode servir para dirimir certas dúvidas quanto às ambigüidades da discriminação. Não comparece aqui nenhum vezo acadêmico, mas um exercício de observação de imprensa, considerando-se as repercussões do episódio "Monteiro Lobato/bloco carnavalesco "Que merda é essa?" sob o pano de fundo do incidente em Paris com John Galliano, estilista da Casa Dior (ver, neste Observatório, "Monteiro Lobato vai para o trono?" e "Monteiro Lobato não precisa de buzinadas").

Eugenia rediviva
Todo mundo está a par, mas vale um pequeno resumo. De cara cheia do que não se sabe, o estilista que veste (agora, vestia...) celebridades insultou judeus em pleno Marais (bairro parisiense com uma presença numerosa de comércio e moradores judeus), além de proclamar o seu amor por Hitler. As conseqüências foram imediatas: Galliano não só foi demitido da Dior como as roupas que ele assinara para as atrizes da festa do Oscar deixaram de ser usadas. "Ele me enoja" foi a frase-síntese da atriz Natalie Portman para o episódio.
Agora apliquemos a regra da quarta proporcional a um caso fictício em que um estilista da língua, um bom escritor se refira ao povo de Israel nos mesmos termos em que Monteiro Lobato se referia aos negros, por exemplo, nos textos transcritos pelo jornalista Arnaldo Bloch na página "Logo" de O Globo (2/3/2011). Pergunte-se: o que aconteceria? Haveria escritor, editor ou colunista atestando que não havia racismo nenhum, que os tempos eram outros, que é ridículo buscar cabelo em ovo, que a consciência infantil jamais seria afetada pelas imagens de rebaixamento e que, no fundo, imaginação literária não é imagem em ação?
Temos certeza de que não haveria. Por quê? Pelo simples fato de que a comunidade judaica aprendeu a repelir a infâmia do racismo. Primeiro, ela sempre soube, por sua milenar tradição intelectual, da importância de se ter autoridade semântica sobre si mesmo; segundo, por meio do sofrimento infligido à consciência pela disseminação, realmente virótica, dos estereótipos negativos. O humor judaico conhece a diferença entre as auto-ironias e o discurso da infâmia.
Ora, dirão, os tempos eram outros, até mesmo da pena esclarecida de um Sérgio Buarque de Hollanda partiu em certo momento (1920) um juízo negativo sobre a mestiçagem. Muito antes disso, entretanto, intelectuais brasileiros como Joaquim Nabuco e Rui Barbosa entenderam perfeitamente o papel desempenhado pelos africanos e seus descendentes na formação do povo nacional. Aliás, todos os próceres abolicionistas, claros ou escuros – Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, José do Patrocínio, Luiz Gama e outros – eram atravessados por uma espécie de "espírito" educacional, que não podia comportar juízos "lobatianos" sobre a condição negra.
O abolicionismo era em si mesmo um movimento educacional no sentido amplo da palavra, porque se tratava de preparar as elites dirigentes para o ingresso da nação brasileira no século 20 sob o signo de uma modernidade (de inspiração liberal e européia) incompatível com a escravatura e já muito atrasada frente à conjuntura internacional. Os intelectuais abolicionistas eram educadores coletivos, porque representavam aquilo que Nietzsche chamaria de "autoridade imperiosa em matéria de cultura" (a exemplo de Goethe, Hegel ou Schopenhauer na Alemanha). Por isso, podiam ser implicitamente reconhecidos como "instrutores públicos" ou indicadores da necessidade histórica de se mudar toda uma estrutura anacrônica.
Por outro lado, havia a eugenia, nome da pseudociência surgida em fins do século 19, com o fim de "melhorar" geneticamente a espécie humana, assim como se pode experimentar com animais. Era um anacronismo que arrefeceu nos EUA por volta dos anos 1930, transferindo-se para a Alemanha nazista, onde fez carreira. Além de anacrônico, era um pensamento violento, porque não disfarçava o desejo de morte do Outro considerado geneticamente inaceitável e, por derivação, culturalmente rebaixado pela consciência investida do pior do universalismo europeu. Mesmo deixando de lado o nome próprio, às vezes falando em nome da genética, a eugenia persistiu ao longo do século em escritos de antropólogos, sociólogos, ficcionistas, jornalistas e, pior de tudo, nas falas de professores que os recitavam para platéias em formação.

Recado entendido
Monteiro Lobato está agora em foco precisamente porque era um militante do movimento eugenista, com coragem para dizer o que pensava e sentia. "A escrita é um processo indireto de fazer eugenia", repetia ele, como que deixando aberto o convite, para além do que explicitava em suas cartas, a que se pesquisasse o conteúdo subliminar eugenista em seus textos. Era, reiteramos, racista confesso, sem meias falas. Ignorância é o encobrimento desse dado histórico.
Por que se encobre? Podem ser muitas as respostas, mas simplifiquemos um pouco com a hipótese da existência nas elites brasileiras de um "princípio do avestruz", essa ave que, segundo a mitologia popular, enterra a cabeça na areia para não ver aquilo que teme. Na prática, o struthio camelus é bicho de visão e audição aguçadas, capaz de formidáveis patadas, se ameaçado. Mas o mito lhe atribui esse estranho comportamento, que costuma repercutir na vida real. A mídia, por exemplo, que é intelectual coletivo das classes dirigentes, caixa de ressonância dos fantasmas elitistas, sabe bem a hora de meter a cara no buraco.
Não é um princípio que se aplique a todas as situações espinhosas. Se um economista apresenta a realidade da discriminação em números e com a terminologia de praxe, as pessoas são capazes de assentir com a cabeça, a imprensa escrita é capaz de publicar com destaque a apresentação. A coisa toda pode até incomodar um pouco, mas o economês é discurso de poder, logo, tem vias de trânsito, ainda que levante contradições.
O problema aparece de fato quando o discurso antidiscriminatório tem conotações políticas com rebatimento sobre o plano das relações interpessoais. Aí o bicho pega e comparece o princípio do avestruz: ver o real é assustador. Como "ver" que aquele escritor com que nos embalaram desde a infância e cuja obra resultou naquela série de televisão tão afetuosa e tão vendida no exterior era pior do que o estilista John Galliano, já que não precisava sequer encher a cara ou o nariz para dizer o que pensava? Sobre a mídia ou sobre o cotidiano de cada cidadão, paira o princípio do avestruz como uma espécie de garantia para que não se veja a ignorância própria ou não se veja o tamanho da própria coragem existencial, certamente ínfimo diante da coragem de Lobato que, como frisamos, assinava embaixo da infâmia.
Não se trata, portanto, de censura nem de aplicação do "politicamente correto". Trata-se, sim, de dar nome aos bois, de encarar o real e aprender coletivamente a lidar com os paradoxos, as contradições e as ambigüidades de que também é feito o nosso meio vital, esse "mundo da vida" de que tanto fala o ilustre alemão Jürgen Habermas. Monteiro Lobato e sua literatura fazem parte do mundo da vida nacional.
Mas o Estado-Nação brasileiro ainda não está concluso: deve-se, mais do que nunca, continuar a ler Lobato, apenas, quem sabe, com o cotejo de predecessores como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, José do Patrocínio ou de autores contemporâneos com uma visão mais generosa da espécie humana. Enfim, é preciso recuperar um pouco do espírito de instrução pública que bafejou o Brasil nas lides abolicionistas e republicanas. A mídia – será apenas a televisão? – tem-nos feito esquecer a brasilidade oitocentista, que presidiu ao nascimento da Nação independente, soterrando-nos com lixo cultural reciclado.
Não procede a afirmação de que esse tipo de revisão é coisa de acadêmico. Academicamente, já fui orientador de tese de doutoramento sobre a literatura de Lobato, sem que se levantasse o tópico do racismo. Não eram majoritariamente acadêmicos aqueles que se incomodaram com a camiseta do bloco carnavalesco em que Lobato sambava com uma negra. Pareceu-me gente que entendia do recado: ele poderia dançar fox-trot, jamais sambar, muito menos com uma negra ou mulata.

Mais embaixo
Aqueles que se manifestaram na rua eram membros dessa coorte crescente de cidadãos cada vez mais inspirados pelas lições anti-racistas da comunidade judaica. A "pretalhada" (termo lobatiano) é mesmo "inextinguível" (termo lobatiano) e está em luta pela representação social. Para quem quiser ampliar até a substância a metáfora do avestruz, vale tomar nota de que a carne dessa ave já não é rara em supermercado: enterrou a cabeça, dançou. Ao jornalista-avestruz, congelado na restituição "afetuosa" do passado, vale a advertência cantada por Zeca Pagodinho: "Camarão que dorme a onda leva".
Por isso tudo foi muito interessante a página "Logo" de O Globo. Transcrevendo trechos inequívocos de textos de Lobato em caixa alta, o jornalista Arnaldo Bloch, jovem e esclarecido membro da comunidade judaica do Rio de Janeiro, deu um recado implícito aos profissionais da leviandade: o buraco é mais embaixo. É assim mesmo que se deve entender o tom do recado. Arnaldo, se bem me lembro, foi da turma do saudoso Bussunda na ECO (UFRJ), na época em que dirigi a escola. Saudoso, sim, pois Bussunda, membro daquela mesma comunidade do Arnaldo, era um iconoclasta que contornava saudavelmente a hipocrisia do "politicamente correto".
Saudavelmente? Sim, na contracorrente do princípio do avestruz e longe, muito longe, da infâmia raivosa.
Obs.: Os destaque e negritos são meus.

18.2.11

Carta Aberta ao Ziraldo, por Ana Maria Gonçalves

Num extenso e substancial texto a escritora Ana Maria Gonçalves  nos revela as entranhas do pensamento racista de Monteiro Lobato e do seu mais novo herdeiro Ziraldo, autor da camiseta do Bloco Carnavalesco "Que merda é essa" para o carnaval de 2011 que desfila no bairro de Ipanema, zona sul carioca, região de alta classe média do Rio de Janeiro. Num vídeo em que o link (Que merda é essa?) está no texto abaixo, vê-se que o bloco foi fundado por um grupo composto com negros frequentadores das praias e bares de Ipanema fazendo exatamente aquela "mistura racial" em que o negro se vê constrangido a ridicularizar-se para ser aceito no grupo como normalmente acontece na democracia racial brasileira. 

Carta Aberta ao Ziraldo
por Ana Maria Gonçalves


Caro Ziraldo,
Olho a triste figura de Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, estampada nas camisetas do bloco carnavalesco carioca "Que merda é essa?" e vejo que foi obra sua. Fiquei curiosa para saber se você conhece a opinião de Lobato sobre os mestiços brasileiros e, de verdade, queria que não. Eu te respeitava, Ziraldo. Esperava que fosse o seu senso de humor falando mais alto do que a ignorância dos fatos, e por breves momentos até me senti vingada. Vingada contra o racismo do eugenista Monteiro Lobato que, em carta ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: "(...)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!..." (em "A barca de Gleyre". São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).
Ironia das ironias, Ziraldo, o nome do livro de onde foi tirado o trecho acima é inspirado em um quadro do pintor suíço Charles Gleyre (1808-1874), Ilusões Perdidas. Porque foi isso que aconteceu. Porque lendo uma matéria sobre o bloco e a sua participação, você assim o endossa : "Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista". A gente quem, Ziraldo? Para quem você se (auto) justifica? Quem te disse que racismo sem ódio, mesmo aquele com o "humor negro" de unir uma mulata a quem grande ódio teve por ela e pelo que ela representava, não é racismo? Monteiro Lobato, sempre que se referiu a negros e mulatos, foi com ódio, com desprezo, com a certeza absoluta da própria superioridade, fazendo uso do dom que lhe foi dado e pelo qual é admirado e defendido até hoje. Em uma das cartas que iam e vinham na barca de Gleyre (nem todas estão publicadas no livro, pois a seleção foi feita por Lobato, que as censurou, claro) com seu amigo Godofredo Rangel, Lobato confessou que sabia que a escrita "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".
Lobato estava certo. Certíssimo. Até hoje, muitos dos que o leram não vêem nada de errado em seu processo de chamar negro de burro aqui, de fedorento ali, de macaco acolá, de urubu mais além. Porque os processos indiretos, ou seja, sem ódio, fazendo-se passar por gente boa e amiga das crianças e do Brasil, "work" muito bem. Lobato ficou frustradíssimo quando seu "processo" sem ódio, só na inteligência, não funcionou com os norte-americanos, quando ele tentou em vão encontrar editora que publicasse o que considerava ser sua obra prima em favor da eugenia e da eliminação, via esterilização, de todos os negros. Ele falava do livro "O presidente negro ou O choque das raças"que, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, país daquele povo que odeia negros, como você diz, Ziraldo, foi publicado no Brasil. Primeiro em capítulos no jornal carioca A Manhã, do qual Lobato era colaborador, e logo em seguida em edição da Editora Companhia Nacional, pertencente a Lobato. Tal livro foi dedicado secretamente ao amigo e médico eugenista Renato Kehl, em meio à vasta e duradoura correspondência trocada pelos dois:“Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (...) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha".
Impossibilitado de colher os frutos dessa poda nos EUA, Lobato desabafou com Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Tempos depois, voltou a se animar: "Um escândalo literário equivale no mínimo a 2.000.000 dólares para o autor (...) Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos - o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos". Lobato percebeu, Ziraldo, que talvez devesse apenas exasperar-se mais, ser mais claro em suas ideias, explicar melhor seu ódio e seu racismo, não importando a quem atingiria e nem por quanto tempo perduraria, e nem o quão fundo se instalaria na sociedade brasileira. Importava o dinheiro, não a exasperação dos ofendidos. 2.000.000 de dólares, ele pensava, por um ovo de escândalo. Como também foi por dinheiro que o Jeca Tatu, reabilitado, estampou as propagandas do Biotônico Fontoura.
Você sabe que isso dá dinheiro, Ziraldo, mesmo que o investimento tenha sido a longo prazo, como ironiza Ivan Lessa: "Ziraldo, o guerrilheiro do traço, está de parabéns. Finalmente o governo brasileiro tomou vergonha na cara e acabou de pagar o que devia pelo passe de Jeremias, o Bom, imortal personagem criado por aquele que também é conhecido como “o Lamarca do nanquim”. Depois do imenso sucesso do calunguinha nas páginas de diversas publicações, assim como também na venda de diversos produtos farmacêuticos, principalmente doenças da tireóide, nos idos de 70, Ziraldo, cognominado ainda nos meios esclarecidos como “o subversivo da caneta Pilot”, houve por bem (como Brutus, Ziraldo é um homem de bem; são todos uns homens de bem – e de bens também) vender a imagem de Jeremias para a loteca, ou seja, para a Caixa Econômica Federal (federal como em República Federativa do Brasil) durante o governo Médici ou Geisel (os déspotas esclarecidos em muito se assemelham, sendo por isso mesmo intercambiáveis)".
No tempo em que linchavam negros, disse Lobato, como se o linchamento ainda não fosse desse nosso tempo. Lincham-se negros nas ruas, nas portas dos shoppings e bancos, nas escolas de todos os níveis de ensino, inclusive o superior. O que é até irônico, porque Lobato nunca poderia imaginar que chegariam lá. Lincham-se negros, sem violência física, é claro, sem ódio, nos livros, nos artigos de jornais e revistas, nos cartoons e nas redes sociais, há muitos e muitos carnavais. Racismo não nasce do ódio ou amor, Ziraldo, sendo talvez a causa e não a consequência da presença daquele ou da ausência desse. Racismo nasce da relação de poder. De poder ter influência ou gerência sobre as vidas de quem é considerado inferior. "Em que estado voltaremos, Rangel," se pergunta Lobato, ao se lembrar do quadro para justificar a escolha do nome do livro de cartas trocadas, "desta nossa aventura de arte pelos mares da vida em fora? Como o velho de Gleyre? Cansados, rotos? As ilusões daquele homem eram as velas da barca – e não ficou nenhuma. Nossos dois barquinhos estão hoje cheios de velas novas e arrogantes, atadas ao mastro da nossa petulância. São as nossas ilusões". Ah, Ziraldo, quanta ilusão (ou seria petulância? arrogância; talvez? sensação de poder?) achar que impor à mulata a presença de Lobato nessa festa tipicamente negra, vá acabar com a polêmica e todos poderemos soltar as ancas e cada um que sambe como sabe e pode. Sem censura. Ou com censura, como querem os quemerdenses. Mesmo que nesse do Caçadas de Pedrinho a palavra censura não corresponda à verdade, servindo como mero pretexto para manifestação de discordância política, sem se importar com a carnavalização de um tema tão dolorido e tão caro a milhares de brasileiros. E o que torna tudo ainda mais apelativo é que o bloco aponta censura onde não existe e se submete, calado, ao pedido da prefeitura para que não use o próprio nome no desfile. Não foi assim? Você não teve que escrever "M*" porque a palavra "merda" foi censurada? Como é que se explica isso, Ziraldo? Mente-se e cala-se quando convém? Coerência é uma questão de caráter.
O que o MEC solicita não é censura. É respeito aos Direitos Humanos. Ao direito de uma criança negra em uma sala de aula do ensino básico e público, não se ver representada (sim, porque os processos indiretos, como Lobato nos ensinou, "work" muito mais eficientemente) em personagens chamados de macacos, fedidos, burros, feios e outras indiretas mais. Você conhece os direitos humanos, inclusive foi o artista escolhido para ilustrar aCartilha de Direitos Humanosencomendada pela Presidência da República, pelas secretarias Especial de Direitos Humanos e de Promoção dos Direitos Humanos, pela ONU, a UNESCO, pelo MEC e por vários outros órgãos. Muitos dos quais você agora desrespeita ao querer, com a sua ilustração, acabar de vez com a polêmica causada por gente que estudou e trabalhou com seriedade as questões de educação e desigualdade racial no Brasil. A adoção do Caçadas de Pedrinho vai contra a lei de Igualdade Racial e o Estatuto da Criança e do Adolescente, que você conhece e ilustrou tão bem. Na página 25 da sua Cartilha de Direitos Humanos, está escrito: "O único jeito de uma sociedade melhorar é caprichar nas suas crianças. Por isso, crianças e adolescentes têm prioridade em tudo que a sociedade faz para garantir os direitos humanos. Devem ser colocados a salvo de tudo que é violência e abuso. É como se os direitos humanos formassem um ninho para as crianças crescerem." Está lá, Ziraldo, leia de novo: "crianças e adolescentes têm prioridade". Em tudo. Principalmente em situações nas quais são desrespeitadas, como na leitura de um livro com passagens racistas, escrito por um escritor racista com finalidades racistas. Mas você não vê racismo e chama de patrulhamento do politicamente correto e censura. Você está pensando nas crianças, Ziraldo? Ou com medo de que, se a moda pega, a "censura" chegue ao seu direito de continuar brincando com o assunto? "Acho injusto fazer isso com uma figura da grandeza de Lobato", você disse em uma reportagem. E com as crianças, o público-alvo que você divide com Lobato, você acha justo? Sim, vocês dividem o mesmo público e, inclusive, alguns personagens, como uma boneca e pano e o Saci, da sua Turma do Pererê. Medo de censura, Ziraldo, talvez aos deslizes, chamemos assim, que podem ser cometidos apenas porque se acostuma a eles, a ponto de pensar que não são, de novo chamemos assim, deslizes.
A gente se acostuma, Ziraldo. Como o seu menino marrom se acostumoucom as sandálias de dedo: "O menino marrom estava tão acostumado com aquelas sandálias que era capaz de jogar futebol com elas, apostar corridas, saltar obstáculos sem que as sandálias desgrudassem de seus pés. Vai ver, elas já faziam parte dele" (ZIRALDO, 1986,p. 06, em O Menino Marrom). O menino marrom, embora seja a figura simpática e esperta e bonita que você descreve, estava acostumado e fadado a ser pé-de-chinelo, em comparação ao seu amigo menino cor-de-rosa, porque "(...) um já está quase formado e o outro não estuda mais (...). Um já conseguiu um emprego, o outro foi despedido do quinto que conseguiu. Um passa seus dias lendo (...), um não lê coisa alguma, deixa tudo pra depois (...). Um pode ser diplomata ou chofer de caminhão. O outro vai ser poeta ou viver na contramão (...). Um adora um som moderno e o outro – Como é que pode? – se amarra é num pagode. (...) Um é um cara ótimo e o outro, sem qualquer duvida, é um sujeito muito bom. Um já não é mais rosado e o outro está mais marrom" (ZIRALDO, 1986, p.31). O menino marrom, ao crescer, talvez virasse marginal, fado de muito negro, como você nos mostra aqui: "(...) o menino cor-de-rosa resolveu perguntar: por que você vem todo o dia ver a velhinha atravessar a rua? E o menino marrom respondeu: Eu quero ver ela ser atropelada" (ZIRALDO, 1986, p.24), porque a própria professora tinha ensinado para ele a diferença e a (não) mistura das cores. Então ele pensou que "Ficar sozinho, às vezes, é bom: você começa a refletir, a pensar muito e consegue descobrir coisas lindas. Nessa de saber de cor e de luz (...) o menino marrom começou a entender porque é que o branco dava uma idéia de paz, de pureza e de alegria. E porque razão o preto simbolizava a angústia, a solidão, a tristeza. Ele pensava: o preto é a escuridão, o olho fechado; você não vê nada. O branco é o olho aberto, é a luz!" (ZIRALDO, 1986, p.29), e que deveria se conformar com isso e não se revoltar, não ter ódio nenhum ao ser ensinado que, daquela beleza, pureza e alegria que havia na cor branca, ele não tinha nada. O seu texto nos ensina que é assim, sem ódio, que se doma e se educa para que cada um saiba o seu lugar, com docilidade e resignação: "Meu querido amigo: Eu andava muito triste ultimamente, pois estava sentindo muito sua falta. Agora estou mais contente porque acabo de descobrir uma coisa importante: preto é, apenas, aausência do branco" (ZIRALDO, 1986, p.30).
Olha que interessante, Ziraldo: nós que sabemos do racismo confesso de Lobato e conseguimos vê-lo em sua obra, somos acusados por você de "macaquear" (olha o termo aí) os Estados Unidos, vendo racismo em tudo. "Macaqueando" um pouco mais, será que eu poderia também acusá-lo de estar "macaqueando" Lobato, em trechos como os citados acima? Sem saber, é claro, mas como fruto da introjeção de um "processo" que ele provou que "work" com grande eficiência e ao qual podemos estar todos sujeitos, depois de sermos submetidos a ele na infância e crescermos em uma sociedade na qual não é combatido. Afinal, há quem diga que não somos racistas. Que quem vê o racismo, na maioria os negros, que o sofrem, estão apenas "macaqueando". Deveriam ficar calados e deixar dessa bobagem. Deveriam se inspirar no menino marrom e se resignarem. Como não fazem muitos meninos e meninas pretos e marrons, aqueles que são a ausência do branco, que se chateiam, que se ofendem, que sofrem preconceito nas ruas e nas escolas e ficam doídos, pensando nisso o tempo inteiro, pensando tanto nisso que perdem a vontade de ir à escola, começam a tirar notas baixas porque ficam matutando, ressentindo, a atenção guardadinha lá debaixo da dor. E como chegam à conclusão de que aquilo não vai mudar, que não vão dar em nada mesmo, que serão sempre pés-de-chinelo, saem por aí especializando-se na arte de esperar pelo atropelamento de velhinhas.
Racismo é um dos principais fatores responsáveis pela limitada participação do negro no sistema escolar, Ziraldo, porque desvia o foco, porque baixa a auto-estima, porque desvia o foco das atividades, porque a criança fica o tempo todo tendo que pensar em como não sofrer mais humilhações, e o material didático, em muitos casos, não facilita nada a vida delas. E quando alguma dessas crianças encontra um jeito de fugir a esse destino, mesmo que não tenha sido através da educação, fica insuportável e merece o linchamento público e exemplar, como o sofrido por Wilson Simonal. Como exemplo, temos a sua opinião sobre ele: "Era tolo, se achava o rei da cocada preta, coitado. E era mesmo. Era metido, insuportável". Sabe, Ziraldo, é por causa da perpetuação de estereótipos como esses que às vezes a gente nem percebe que eles estão ali, reproduzidos a partir de preconceitos adquiridos na infância, que a SEPPIR pediu que o MEC reavaliasse a adoção de Caçadas de Pedrinho. Não a censura, mas a reavaliação. Uma nota, talvez, para ser colocada junto com as outras notas que já estão lá para proteger os direitos das onças de não serem caçadas e o da ortografia, de evoluir. Já estão lá no livro essas duas notas e a SEPPIR pede mais uma apenas, para que as crianças e os adolescentes sejam "colocados a salvo de tudo que é violência e abuso", como está na cartilha que você ilustrou. Isso é um direito delas, como seres humanos. É por isso que tem gente lutando, como você também já lutou por direitos humanos e por reparação. É isso que a SEPPIR pede: reparação pelos danos causados pela escravidão e pelo racismo.
Assim você se defendeu de quem o atacou na época em que conseguiu fazer valer os seus direitos: "(…) Espero apenas que os leitores (que o criticam) não tenham sua casa invadida e, diante de seus filhos, sejam seqüestrados por componentes do exército brasileiro pelo fato de exercerem o direito de emitir sua corajosa opinião a meu respeito, eu, uma figura tão poderosa”. Ziraldo, você tem noção do que aconteceu com os, citando Lobato, "negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão", e do que acontece todos os dias com seus descendentes em um país que naturalizou e, paradoxalmente, nega o seu racismo? De quantos já morreram e ainda morrem todos os dias porque tem gente que não os leva a sério? Por causa do racismo é bem difícil que essa gente fadada a ser pé-de-chinelo a vida inteira, essas pessoas dos subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal, - porque nelas está a ausência do branco, esse povo todo representado pela mulata dócil que você faz sorrir nos braços de um dos escritores mais racistas e perversos e interesseiros que o Brasil já teve, aquele que soube como ninguém que um país (racista) também de faz de homens e livros (racistas), por causa disso tudo, Ziraldo, é que eu ia dizendo ser quase impossível para essa gente marrom, herdeira dessa gente de cor que simboliza a angústia, a solidão, a tristeza, gerar pessoas tão importantes quanto você, dignas da reparação (que nem é financeira, no caso) que o Brasil também lhes deve: respeito. Respeito que precisou ser ancorado em lei para que tivesse validade, e cuja aplicação você chama de censura.
Junto com outros grandes nomes da literatura infantil brasileira, comoAna Maria Machado e Ruth Rocha, você assinou uma carta que, em defesa de Lobato e contra a censura inventada pela imprensa, diz:"Suas criações têm formado, ao longo dos anos, gerações e gerações dos melhores escritores deste país que, a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu destino. (...) A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança em seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado, nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares das nossas melhores conquistas culturais e sociais."É isso. Nos livros de Lobato está o racismo do racista, que ninguém vê, que vocês acham que não é problema, que é alicerce, que é necessário à formação das nossas futuras gerações, do nosso futuro. E é exatamente isso. Alicerce de uma sociedade que traz o racismo tão arraigado em sua formação que não consegue manter a necessária distância do foco, a necessário distância para enxergá-lo. Perpetuar isso parece ser patriótico, esse racismo que "faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças." Sabe o que Lobato disse em carta ao seu amigo Poti, nos albores do século passado, em 1905? Ele chamava de patriota o brasileiro que se casasse com uma italiana ou alemã, para apurar esse povo, para acabar com essa raça degenerada que você, em sua ilustração, lhe entrega de braços abertos e sorridente. Perpetuar isso parece alimentar posições de pessoas que, mesmo não sendo ou mesmo não se achando racistas, não se percebem cometendo a atitude racista que você ilustrou tão bem: entregar essas crianças negras nos braços de quem nem queria que elas nascessem. Cada um a seu modo, a repetir seu destino. Quem é poderoso, que cobre, muito bem cobrado, seus direitos; quem não é, que sorria, entre na roda e aprenda a sambar.
Peguei-o para bode expiatório, Ziraldo? Sim, sempre tem que ter algum. E, sem ódio, espero que você não queira que eu morra por te criticar. Como faziam os racistas nos tempos em quem ainda linchavam negros. Esses abusados que não mais se calam e apelam para a lei ao serem chamados de "macaco", "carvão", "fedorento", "ladrão", "vagabundo", "coisa", "burro", e que agora querem ser tratados como gente, no concerto dos povos. Esses que, ao denunciarem e quererem se livrar do que lhes dói, tantos problemas criam aqui, nesse país do futuro. Em uma matéria do Correio Braziliense você disse que "Os americanos odeiam os negros, mas aqui nunca houve uma organização como a Ku Klux Klan. No Brasil, onde branco rico entra, preto rico também entra. Pelé nunca foi alvo de uma manifestação de ódio racial. O racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos”. Se dependesse de Monteiro Lobato, o Brasil teria tido sua Ku-Klux-Klan, Ziraldo. Leia só o que ele disse em carta ao amigo Arthur Neiva, enviada de Nova Iorque em 1928, querendo macaquear os brancos norte-americanos: "Diversos amigos me dizem: Por que não escreve suas impressões? E eu respondo: Porque é inútil e seria cair no ridículo. Escrever é aparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade. Mulatada, em suma. País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa frase as duas atitudes. "Nós defendemos o front da raça branca - diz o sul - e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil". Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca - mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva." Fosse feita a vontade de Lobato, Ziraldo, talvez não tivéssemos a imprensa carioca, talvez não tivéssemos você. Mas temos, porque, como você também diz, "o racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos." Como, para acabar com a polêmica, você nos ilustra com o desenho para o bloco quemerdense. Olho para o rosto sorridente da mulata nos braços de Monteiro Lobato e quase posso ouvi-la dizer: "Só dói quando eu rio".
Com pesar, e em retribuição ao seu afeto,
Ana Maria Gonçalves, mulher negra, escritora, autora de Um defeito de cor.
 
Publicado em O Biscoito Fino e a Massa
Leia também a entrevista exclusiva de Ana Gonçalves a mim concedida em Valeu Zumbi Valeu

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